segunda-feira, 16 de janeiro de 2017

CAROLE LOMBARD - 75 ANOS DE SAUDADE

Carole Lombard
http://www.doctormacro.com/


Há 75 anos falecia a atriz norte americana CAROLE LOMBARD.

Nascida em 06 de outubro de 1908, Carole Lombard se destacou no cinema dos anos 30, protagonizando comédias como Irene, a Teimosa (My Man Godfrey, de 1936), dirigida por Gregory La Cava.

Em 16 de janeiro de 1942, durante a II Guerra Mundial, Carole terminava uma viagem cujo objetivo era vender bônus para auxílio das tropas norte americanas. Ela estava acompanhada de sua mãe e, querendo voltar logo para perto de seu esposo, o ator Clark Gable, pegou um vôo que partia de Las Vegas. A aeronave se chocou em uma montanha. 

Mesmo depois de várias décadas de sua morte, Carole Lombard ainda é lembrada e continua fascinando novas gerações de fã, inclusive pela Internet.









domingo, 8 de janeiro de 2017

ARACY CÔRTES - 32 ANOS DE SAUDADE

Aracy Côrtes, anos 30.
Arquivo Nirez.




Há 32 anos falecia a cantora e atriz ARACY CÔRTES.

Aracy Côrtes nasceu no Rio de Janeiro em 31 de março de 1904.

No final da década de 1910 estreou em teatros e circos, se destacando por sua forma de cantar e sambar. No final da década de 1920 era considerada Rainha do Teatro de Revista, e também da Praça Tiradentes, onde lançou, nos palcos, vários compositores e seus sucessos.

Começou a gravar discos em 1925, ainda na Casa Edison. Em 1928, lançou o sucesso de Sinhô, Jura!... e em janeiro de 1929, Yayá (Ai Yoyô - Linda Flor), de Henrique Vogeler, Luís Peixoto e Marques Porto.

Em meados da década de 1940 começou a se afastar dos palcos, voltando esporadicamente. Em 1965, ao lado de Clementina de Jesus, Paulinho d Viola, entre outros, brilhou no espetáculo Rosa de Ouro, produzido por Hermínio Bello de Carvalho.

Ainda faria algumas apresentações, como o célebre show de 1984, ao lado da cantora e atriz Marília Barbosa, que marcava os 80 anos de idade de Aracy.

Em 08 de janeiro de 1985 Aracy Côrtes falecia, no Rio de Janeiro.

Seu legado para nossa música foi e é importantíssimo, sendo um dos principais nomes da chamada Época de Ouro da MPB.


Trago algumas músicas que Aracy Côrtes gravou nos anos 50. Seriam suas últimas gravações comerciais. Nessa época, ela regravou Ai, Ioiô e Um Sorriso. lançando mais quatro músicas inéditas, entre elas, uma de sua autoria ao lado de César Cruz.



FLOR DO LODO
Samba canção de Ary Mesquita
Acompanhamento de Orquestra
Disco Odeon 13.398-A, matriz 9546
Gravado em 23 de dezembro de 1952 e lançado em março de 1953



HINO À VIDA
Samba de Vicente Paiva, Max Nunes e J. Maia
Acompanhamento de Orquestra
Disco Odeon 13.398-B, matriz 9547
Gravado em 23 de dezembro de 1952 e lançado em março de 1953



AI IOIÔ
Samba Canção de Henrique Vogeler, Luís Peixoto e Marques Porto
Acompanhamento de Orquestra
Disco Odeon 13.535-A, matriz 9850
Gravado em 21 de agosto de 1953 e lançado em novembro



DENGUINHO
Samba de Aracy Côrtes e César Cruz
Acompanhamento de Orquestra
Disco Odeon 13.535-B, matriz 9849
Gravado em 21 de agosto de 1953 e lançado em novembro



AS CADEIRAS DE IAIÁ
Samba de Nelson Castro e Armando Maciel
Acompanhamento de Orquestra
Disco Odeon 13.693-A, matriz RIO-10167
Gravado em 11 de junho de 1954 e lançado em agosto



UM SORRISO
Samba de Benedito Lacerda e Felisberto Martins
Acompanhamento de Orquestra
Disco Odeon 13.693-B, matriz RIO-10166
Gravado em 11 de junho de 1954 e lançado em agosto









Agradecimento ao Arquivo Nirez











sexta-feira, 6 de janeiro de 2017

NOITE DE REIS - TANGO DE 1927

Trago novamente a postagem sobre o tango NOITE DE REIS


Noche de Reyes é um belo tango composto em 1927 por Jorge Curi (letra em espanhol) e Pedro Maffia (melodia). A gravação original foi feita pelo grande Carlos Gardel, em 22 de outubro de 1927.
Em 1928, o cantor e compositor Zeca Ivo fez uma tradução em português, Noite de Reis, ficando mais conhecida (embora décadas mais tarde houvessem versões bem semelhantes) devido à gravação feita por Francisco Alves, nesse mesmo ano. A cantora brasileira Lydia Campos fez muito sucesso cantando em espanhol, chegando inclusive a gravar.



Francisco Alves, Lydia Campos e Carlos Gardel.


O Dia de Reis, segundo a tradição cristã, seria o dia em que Jesus Cristo, recém nascido, recebeu a visita dos Reis Magos, tendo ocorrido no dia 06 de janeiro. A noite do dia 05 e a madrugada do dia 06 de janeiro é conhecida como Noite de Reis. Em alguns lugares, como a Itália, não existe a tradição de se trocar  presentes no dia 25 de dezembro, e sim, no dia 06 de janeiro.

No Brasil, por exemplo, existe ainda o Reisado, ou Folia de Reis, que se inicia em 24 de dezembro, indo até o dia 06 de janeiro. Embora cada vez mais raro, em algumas cidade, na noite do dia 05 de janeiro, alguns grupos e/ou crianças saem de porta em porta cantando e pedindo prendas.
Para conhecer mais sobre o Reisado, indico o site de minha amiga Lúcia Paiva, Na Cadeirinha de Arruar.


Vamos conferir as letras e gravações do tango Noite de Reis (Noche de Reyes).



Pedro Maffia


Zeca Ivo



Carlos Gardel, em gravação de 1927.


Francisco Alves, acompanhado de piano e dois violões
Gravação de 1928
Disco Odeon 10.197-A, matriz 1713-I
Lançado em junho de 1928

Uma curiosidade: Essa gravação de Francisco Alves seria relançada mais duas vezes, em discos Odeon, lançados em outubro de 1928 e em janeiro de 1929.




Lydia Campos, acompanhada de piano e violões
Disco Parlophon 12.807-A, matriz 1701
Gravado em 1928 e lançado em agosto de 1928.




Assim como ninguém talvez lhe haja querido
e lhe adorava tanto, que ânsias eu senti!
Por ela fiz-me terno, honrado e bom marido
Em campo de trabalho a vida converti
Ao cabo de algum tempo, detendo o seu carinho
nascia um pequenito, orgulho de meu lar
Era meu sonho ter em breve um doce ninho
Ser chefe de família, honrado a trabalhar

Mas numa Noite de Reis
quando a meu lar regressava
comprovei que me enganava
com o amigo mais fiel!
Ferido o meu amor próprio
quis vingar esse ultraje
Cheio de ira e coragem
sem compaixão os matei!

Que quadro companheiro, nem quero recordar-me!
Me enche de vergonha, de ódio de rancor
Que vale ser bondoso, se à parte eu vingar-me
cravaram em meu peito a flecha desta dor?
Por isso companheiro, sendo Noite de Reis
os sapatinhos fora o nenê os deixou
Espera um momentinho, não sabe que a mãe dele
por falsa e por canalha seu pai já a matou!



Letra em espanhol


La quise como nadie tal vez haya querido
y la adoraba tanto que hasta celos sentí.
Por ella me hice bueno, honrado y buen marido
y en hombre de trabajo, mi vida convertí.
Al cabo de algún tiempo de unir nuestro destino
nacía un varoncito, orgullo de mi hogar;
y era mi dicha tanta al ver claro mi camino,
ser padre de familia, honrado y trabajar.


Pero una noche de Reyes,
cuando a mi hogar regresaba,
comprobé que me engañaba
con el amigo más fiel.
Y ofendido en mi amor propio
quise vengar el ultraje,
lleno de ira y coraje
sin compasión los maté!


Que cuadro compañeros, no quiero recordarlo!
Me llena de vergüenza, de odio y de rencor.
De que vale ser bueno! Si aparte de vengarme
clavaron en mi pecho la flecha del dolor.
Por eso compañero, como hoy es día de Reyes,
los zapatitos el nene afuera los dejo.
Espera un regalito y no sabe que a la madre
por falsa y por canalla, su padre la mató!
 














Agradecimento ao Arquivo Nirez


Fontes:
Tanda of the week (http://is.gd/cmlmW4)
Todo Tango (http://is.gd/YPkbFk)


quarta-feira, 4 de janeiro de 2017

CASIMIRO DE ABREU - 178 ANOS

Casimiro de Abreu



Há 178 nascia o poeta Casimiro de Abreu, da segunda geração romântica.

Casimiro José Marques de Timo Abreu nasceu em 04 de janeiro de 1839, no município de Capivary (RJ). A partir de 1843, sua cidade natal passaria a se chamar Silva Jardim, nome que perdura até hoje.
Nasceu na Fazenda do Prata. Seu pai era um rico comerciante e fazendeiro português, José Joaquim Marques de Abreu, e sua mãe se chamava Luíza Joaquina das Neves.

Com 13 anos foi para o Rio de Janeiro, onde passou a trabalhar no comércio com o pai.
Em 1853, os dois embarcam para Portugal, onde entra em contato com o meio intelectual e escreve a maior parte de suas obras.
De espírito romântico, escreve seus primeiros versos levado pela saudade de casa e da família: "estando a minha casa à hora da refeição, pareceu-me escutar risadas infantis da minha mana pequena. As lágrimas brotavam e fiz os primeiros versos de minha vida, que teve o título de Ave Maria".

Casimiro de Abreu ao 15 anos.


Em 1856, em Lisboa, foi representado seu drama Camões e o Jau, sendo publicado logo depois.
Um de seus poemas mais famosos, Meus Oito Anos, traz os versos:

"Oh! Que saudades que tenho
da aurora da minha vida,
da minha infância querida/que os anos não trazem mais!
Que amor, que sonhos, que flores,/naquelas tardes fagueiras,
à sombra das bananeiras,
debaixo dos laranjais!".


Contraindo tuberculose, volta ao Brasil em 1857, voltando a trabalhar no armazém de seu pai. 
Sua doença não impede que ele participe da vida boêmia de seu tempo. 

Precisando de melhores ares, vai para a fazenda de seu pai em Indaiaçu (o atual município de Casimiro de Abreu). Aí, o poeta vem a falecer em 18 de outubro de 1860, com apenas 21 anos. Conforme seu desejo, foi sepultado em Barra de São João, ao lado de seu pai.

Um ano antes de falecer, publicou suas poesias reunidas sob o título de Primaveras.
O sucesso veio após sua morte.
Casimiro de Abreu foi um dos grandes poetas do romantismo, abordando temas como saudades da casa paterna, saudades da terra natal e o amor.


Litografia de Casimiro em um rótulo de cigarros.


Alguns de seus versos foram musicados e, a partir de 1903, gravados.

Entre os poemas musicados, se destacam Poesia e AmorO Que é Simpatia?, Meus Oito Anos, Moreninha, Crepúsculo, Meu Lar e Amor e Medo, que foram gravados desde 1903 por Senhorita Odete e Mário Pinheiro, e mais tarde por Dalva de Oliveira, Anísio Silva e Carlos Galhardo.

Chiquinha Gonzaga musicou os belíssimos O Que é Simpatia? e Poesia e Amor, este último de uma beleza e bucolismo ímpar. Aliás, Poesia e Amor é um dos poemas que mais tratam da saudade e amor de forma  delicada e cativante.





Confiram alguns de seus poemas que foram musicados e suas letras.
Nem todos os versos foram gravados.
Não encontrei os versos de Crepúsculo.




Poesia e Amor
Poema musicado por Chiquinha Gonzaga
Gravado por Senhorita Odete em 1903
Disco Zon-O-Phone X705



Meu Lar
Modinha gravada por Mário Pinheiro
Disco Odeon Record 70.508
Gravado por volta de 1907


Amor e Medo
Canção gravada por Mário Pinheiro
Disco Odeon Record 70.514
Gravado por volta de 1907



Moreninha
Modinha gravada por Aristarco Dias Brandão
Disco Odeon Record 120.117
Lançado em 1912




Crepúsculo
Modinha gravada por Eduardo das Neves
Disco Odeon Record 120.066, matriz XR-1602
Lançado em 1913




Meus Oito Anos
Tango musicado por Silvino Neto
Gravado por Carlos Galhardo
Acompanhamento de Orquestra
Disco RCA Victor 80-1622-A, matriz BE6-VB-1100
Gravado em 16 de abril de 1956 e lançado em julho




Minha Mãe
Valsa musicada por Lindolfo Gaya
Gravada por Dalva de Oliveira e Anísio Silva
Disco Odeon 14.441, matriz RIO-13297
Gravado em 06 de fevereiro de 1959 e lançado em março



Poesia e Amor

A tarde que expira,
A flor que suspira,
O canto da lira,
Da lua o clarão;
Dos mares na raia
A luz que desmaia,
E as ondas na praia
Lambendo-lhe o chão;

Da noite a harmonia
Melhor que a do dia,
E a viva ardentia
Das águas do mar;
A virgem incauta,
As vozes da flauta,
E o canto do nauta
Chorando o seu lar;

Os trêmulos lumes,
Da fonte os queixumes,
E os meigos perfumes
Que solta o vergel;
As noites brilhantes,
E os doces instantes
Dos noivos amantes
Na lua de mel;

Do templo nas naves
As notas suaves,
E o trino das aves
Saudando o arrebol;
As tardes estivas,
E as rosas lascivas
Erguendo-se altivas
Aos raios do sol;

A gota de orvalho
Tremendo no galho
Do velho carvalho,
Nas folhas do ingá;
O bater do seio,
Dos bosques no meio
O doce gorjeio
Dalgum sabiá;

A órfã que chora,
A flor que se cora
Aos raios da aurora,
No albor da manhã;
Os sonhos eternos,
Os gozos mais ternos,
Os beijos maternos
E as vozes de irmã;

O sino da torre
Carpindo quem morre,
E o rio que corre
Banhando o chorão;
O triste que vela
Cantando à donzela
A trova singela
Do seu coração;

A luz da alvorada,
E a nuvem dourada
Qual berço de fada
Num céu todo azul;
No lago e nos brejos
Os férvidos beijos
E os loucos bafejos
Das brisas do sul;

Toda essa ternura
Que a rica natura
Soletra e murmura
Nos hálitos seus,
Da terra os encantos,
Das noites os prantos,
São hinos, são cantos
Que sobem a Deus!

Os trêmulos lumes,
Da veiga os perfumes,
Da fonte os queixumes,
Dos prados a flor,
Do mar a ardentia
Da noite a harmonia,
Tudo isso é - poesia!
Tudo isso é - amor!

Indaiassú - 1857


Meu Lar

Se eu tenho de morrer na flor dos anos,
Meu Deus, não seja já!
Eu quero ouvir na laranjeira, à tarde,
Cantar o sabiá!

Meu Deus, eu sinto e tu bem vês que eu morro
Respirando este ar;
Faz que eu viva, Senhor! dá-me de novo
Os gozos do meu lar!

O país estrangeiro mais belezas
Do que a pátria não tem;
E este mundo não vale um só dos beijos
Tão doces duma mãe!

Dá-me os sítios gentis onde eu brincava,
Lá na quadra infantil:
Dá que eu veja uma vez o céu da pátria,
O céu do meu Brasil!

Se eu tenho de morrer na flor dos anos,
Meu Deus, não seja já!
Eu quero ouvir na laranjeira, à tarde,
Cantar o sabiá!

Quero ver esse céu da minha terra
Tão lindo e tão azul!
E a nuvem cor de rosa que passava
Correndo lá do sul!

Quero dormir à sombra dos coqueiros,
As folhas por docel;
E ver se apanho a borboleta branca,
Que voa no vergel!

Quero sentar-me à beira do riacho
Das tardes ao cair,
E sozinho cismando no crepúsculo
Os sonhos do porvir!

Se eu tenho de morrer na flor dos anos,
Meu Deus, não seja já!
Eu quero ouvir na laranjeira, à tarde,
A voz do sabiá!

Quero morrer cercado dos perfumes
Dum clima tropical,
E sentir, expirando, as harmonias
Do meu berço natal!

Minha campa será entre as mangueiras,
Banhada do luar,
E eu contente dormirei tranqüilo
À sombra do meu lar!

As cachoeiras chorarão sentidas
Porque cedo morri,
E eu sonho no sepulcro os meus amores,
Na terra onde nasci!

Se eu tenho de morrer na flor dos anos,
Meui Deus, não seja já!
Eu quero ouvir na laranjeira, à tarde
Cantar o sabiá!


Amor e Medo

I.
Quanto eu te fujo e me desvio cauto
Da luz de fogo que te cerca, oh! bela,
Contigo dizes, suspirando amores:
“– Meu Deus! que gelo, que frieza aquela.”

Como te enganas! meu amor é chama
Que se alimenta no voraz segredo,
E se te fujo é que te adoro louco...
És bela – eu moço; tens amor – eu medo!

Tenho medo de mim, de ti, de tudo,
Da luz, da sombra, do silêncio ou vozes,
Das folhas secas, do chorar das fontes,
Das horas longas a correr velozes.

O véu da noite me atormenta em dores,
A luz da aurora me intumesce os seios,
E ao vento fresco do cair das tardes
Eu me estremeço de cruéis receios.

É que esse vento que na várzea – ao longe,
Do colmo o fumo caprichoso ondeia,
Soprando um dia tornaria incêndio
A chama viva que teu riso ateia!

Ai! se abrasado crepitasse o cedro,
Cedendo ao raio que a tormenta envia,
Diz: – que seria da plantinha humilde
Que à sombra dele tão feliz crescia?

A labareda que se enrosca ao tronco
Torrara a planta qual queimara o galho,
E a pobre nunca reviver pudera
Chovesse embora paternal orvalho!

II.

Ai! se eu te visse no calor da sesta,
A mão tremente no calor das tuas,
Amarrotado o teu vestido branco,
Soltos cabelos nas espáduas nuas!...

Ai! se eu te visse, Magdalena pura,
Sobre o veludo reclinada a meio,
Olhos cerrados na volúpia doce,
Os braços frouxos – palpitante o seio!...

Ai! se eu te visse em languidez sublime,
Na face as rosas virginais do pejo,
Trêmula a fala a protestar baixinho...
Vermelha a boca, soluçando um beijo!...

Diz: – que seria da pureza d’anjo,
Das vestes alvas, do candor das asas?
– Tu te queimaras, a pisar descalça,
– Criança louca, – sobre um chão de brasas!

No fogo vivo eu me abrasara inteiro!
Ébrio e sedento na fugaz vertigem
Vil, machucara com meu dedo impuro
As pobres flores da grinalda virgem!

Vampiro infame, eu sorveria em beijos
Toda a inocência que teu lábio encerra,
E tu serias no lascivo abraço
Anjo enlodado nos pauis da terra.

Depois... desperta no febril delírio,
– Olhos pisados – como um vão lamento,
Tu perguntaras: – qu’é da minha c’roa?...
Eu te diria: – desfolhou-a o vento!...

Oh! não me chames coração de gelo!
Bem vês: traí-me no fatal segredo.
Se de ti fujo é que te adoro e muito,
És bela – eu moço; tens amor, eu – medo!...

Outubro – 1858.

Obs. Pauis = Pântanos


Moreninha


Moreninha, Moreninha,
Tu és do campo a rainha,
Tu és senhora de mim;
Tu matas todos d'amores,
Faceira, vendendo as flores
Que colhes no teu jardim.

Quando tu passas n'aldeia
Diz o povo à boca cheia:
- "Mulher mais linda não há
"Ai! vejam como é bonita
"Co'as tranças presas na fita,
"Co'as flores no samburá! -

Tu és meiga, és inocente
Como a rola que contente
Voa e folga no rosal;
Envolta nas simples galas,
Na voz, no riso, nas falas,
Morena - não tens rival!

Tu, ontem, vinhas do monte
E paraste ao pé da fonte
À fresca sombra do til;
Regando as flores, sozinha,
Nem tu sabes, Moreninha,
O quanto achei-te gentil!

Depois segui-te calado
Como o pássaro esfaimado
Vai seguindo a juriti;
Mas tão pura ias brincando,
Pelas pedrinhas saltando,
Que eu tive pena de ti!

E disse então: - Moreninha,
Se um dia tu fores minha,
Que amor, que amor não terás!
Eu dou-te noites de rosas
Cantando canções formosas
Ao som dos meus ternos ais.

Morena, minha sereia,
Tu és a rosa da aldeia,
Mulher mais linda não há;
Ninguém t'iguala ou t'imita
Co'as tranças presas na fita,
Co'as flores no samburá!

Tu és a deusa da praça,
E todo o homem que passa
Apenas viu-te... parou!
Segue depois seu caminho
Mas vai calado e sozinho
Porque sua alma ficou!

Tu és bela, Moreninha,
Sentada em tua banquinha
Cercada de todos nós;
Rufando alegre o pandeiro,
Como a ave no espinheiro
Tu soltas também a voz:

- "Oh quem me compra estas flores?
"São lindas como os amores,
"Tão belas não há assim;
"Foram banhadas de orvalho,
"São flores do meu serralho,
"Colhi-as no meu jardim." -

Morena, minha Morena,
És bela, mas não tens pena
De quem morre de paixão!
- Tu vendes flores singelas
E guardas as flores belas,
As rosas do coração?!...

Moreninha, Moreninha,
Tu és das belas rainha,
Mas nos amores és má
- Como tu ficas bonita
Co'as tranças presas na fita,
Co'as flores no samburá!

Eu disse então: - "Meus amores,
"Deixa mirar tuas flores,
"Deixa perfumes sentir!"
Mas naquele doce enleio,
Em vez das flores, no seio,
No seio te fui bulir!

Como nuvem desmaiada
Se tinge de madrugada
Ao doce albor da manhã
Assim ficaste, querida,
A face em pejo acendida,
Vermelha como a romã!

Tu fugiste, feiticeira,
E decerto mais ligeira
Qualquer gazela não é;
Tu ias de saia curta...
Saltando a moita de murta
Mostraste, mostraste o pé!

Ai! Morena, ai! meus amores,
Eu quero comprar-te as flores,
Mas dá-me um beijo também;
Que importam rosas do prado
Sem o sorriso engraçado
Que a tua boquinha tem?...

Apenas vi-te, sereia,
Chamei-te - rosa da aldeia -
Como mais linda não há.
- Jesus! Como eras bonita
Co'as tranças presas na fita,
Co'as flores no samburá!

Indaiassú - 1857


Meus Oito Anos

Oh! que saudades que tenho
Da aurora da minha vida,
Da minha infância querida
Que os anos não trazem mais!
Que amor, que sonhos, que flores.
Naquelas tardes fagueiras
À sombra das bananeiras,
Debaixo dos laranjais!

Como são belos os dias
Do despontar da existência!
– Respira a alma inocência
Como perfumes a flor;
O mar é – lago sereno,
O céu – um manto azulado,
O mundo – um sonho dourado,
A vida – um hino d’amor!

Que auroras, que sol, que vida,
Que noites de melodia
Naquela doce alegria,
Naquele ingênuo folgar!
O céu bordado d’estrelas,
A terra de aromas cheia,
As ondas beijando a areia
E a lua beijando o mar!

Oh! dias da minha infância!
Oh! meu céu de primavera
Que doce a vida não era
Nessa risonha manhã!
Em vez das mágoas de agora,
Eu tinha nessas delícias
De minha mãe as carícias
E beijos de minha irmã!

Livre filho das montanhas,
Eu ia bem satisfeito,
Da camisa aberto o peito,
– Pés descalços, braços nus –
Correndo pelas campinas
À roda das cachoeiras.
Atrás das asas ligeiras
Das borboletas azuis!

Naqueles tempos ditosos
Ia colher as pitangas,
Trepava a tirar as mangas,
Brincava à beira do mar;
Rezava às Ave-Marias,
Achava o céu sempre lindo,
Adormecia sorrindo
E despertava a cantar!

Oh! que saudades que tenho
Da aurora da minha vida,
Da minha infância querida
Que os anos não trazem mais!
– Que amor, que sonhos, que flores,
Naquelas tardes fagueiras
À sombra das bananeiras,
Debaixo dos laranjais!

Lisboa – 1857



Minha Mãe

Da pátria formosa distante e saudoso,
Chorando e gemendo meus cantos de dor,
Eu guardo no peito a imagem querida
Do mais verdadeiro, do mais santo amor:
– Minha Mãe! –

Nas horas caladas das noites d’estio
Sentado sozinho co’a face na mão,
Eu choro e soluço por quem me chamava
– “Oh filho querido do meu coração!” –
– Minha Mãe! –

No berço, pendente dos ramos floridos
Em que eu pequenino feliz dormitava:
Quem é que esse berço com todo o cuidado
Cantando cantigas alegre embalava?
– Minha Mãe! –

De noite, alta noite, quando eu já dormia
Sonhando esses sonhos dos anjos dos céus,
Quem é que meus lábios dormentes roçava,
Qual anjo da guarda, qual sopro de Deus?
– Minha Mãe! –

Feliz o bom filho que pode contente
Na casa paterna de noite e de dia
Sentir as carícias do anjo de amores,
Da estrela brilhante que a vida nos guia!
– Uma Mãe! –

Por isso eu agora na terra do exílio,
Sentado sozinho co’a face na mão,
Suspiro e soluço por quem me chamava:
– “Oh filho querido do meu coração!” –
– Minha Mãe! –

Lisboa – 1855.





Fontes:
http://apoesiadosoutros.blogspot.com.br/
http://youpode.com.br/blog/todapalavra/
http://pt.wikipedia.org/
http://www.museucasimirodeabreu.com.br/
http://www.dominiopublico.gov.br/

domingo, 1 de janeiro de 2017

ARACY CÔRTES - HINO À VIDA

Aracy Côrtes, anos 30.
Revista Carioca.
Arquivo Nirez.



Para começar 2017 trago ARACY CÔRTES interpretando HINO À VIDA!


Hino à Vida
Samba de Vicente Paiva, Max Nunes e J. Maia
Acompanhamento de Orquestra
Disco Odeon 13.398-B, matriz 9547
Gravado em 23 de dezembro de 1952 e lançado em março de 1953







Agradecimento ao Arquivo Nirez










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