domingo, 5 de outubro de 2008

Helena Pinto de Carvalho - A Nobreza da MPB

Helena Pinto de Carvalho, que também usava Helena de Carvalho,
em fotografia promocional da gravadora Victor, 1930.
Arquivo Nirez.


Hoje, dia 5 de Outubro de 2008, é um dia especial para mim. Uma de minhas cantoras favoritas estaria completando 100 anos, se viva fosse. Helena Pinto de Carvalho foi uma dessas estrelas cadentes que passam iluminando e encantando o caminho que percorrem.
Escrevi um artigo baseado na pesquisa de outra fã de Helena, Taís Matarazzo, e em dados coletados por mim. Divido com vocês um pouco dessa adorável artista.


A Nobreza da MPB

Nascida em berço de ouro, filha de um conde carioca, Helena Pinto de Carvalho possuía todos os indicativos para ser apenas uma figura de destaque da sociedade de São Paulo. Ao invés disso marcou, em sua curta existência, seu nome na história Música Popular Brasileira e nos filmes musicais; tudo isso com o incentivo de seu esposo, um bem sucedido engenheiro.

Helena Falcão Huet Barcellar nasceu em São Paulo em 5 de Outubro de 1908. Sua mãe, Francisca Falcão, nascida no Ceará e criada em Bauru (SP), foi uma rica proprietária de terras. Após ficar viúva do primeiro casamento, e com uma filha pequena (também Francisca, nascida em 1894), casou-se com o conde e engenheiro da Estrada de Ferro Sorocabana Joaquim Huet Bacellar, nascido no Rio de Janeiro. Dessa união, nasceram Helena e Mariana (1913).

A família Huet Barcellar vai morar no Rio de Janeiro e, com a morte de Joaquim, em 1923, Francisca volta a São Paulo com as filhas.

A pesquisadora Thais Matarazzo escreveu uma monografia sobre Helena.Segundo entrevistas com parentes da cantora, “desde criança sentia vontade de cantar, era extrovertida, alegre, culta, amava a arte e cantava somente em casa em reuniões familiares”.

Nos anos de 1920 houve uma revolução dos costumes. As mulheres que ate então usavam roupas longas, escondendo seus corpos, passaram a usar saias curtas, com as pernas à mostra e várias aderiram ao novo corte de cabelo à la Garçonne, onde as longas madeixas davam lugar a um corte curto, com a nuca exposta. Nessa época, Surge o Rádio no Rio de Janeiro (1922), em São Paulo acontece a Semana de Arte Moderna (1922) e, novamente no Rio de Janeiro, era inaugurada a era das gravações fonográficas elétricas (1927), onde não só tenores e sopranos podiam registrar suas vozes. Nesse período efervescente de nossa cultura a jovem Helena se casa em 1927, aos 19 anos. Seu esposo, o engenheiro Paulo Pinto de Carvalho, tinha 34 anos. Paulo se mostraria um homem sem preconceitos e a frente de seu tempo, pois, iria incentivar sua esposa a abraçar a carreira artística.



Moças Pioneiras

As moças das chamadas “boas famílias” começaram a se infiltrar no meio artístico nesses anos revolucionários. Décadas antes, algumas mulheres conseguiram destaque e respeito no teatro de revista e na música popular, como a atriz e cantora Pepa Delgado e a atriz e empresária Cinira Polônio. Porém, era de praxe criticar e censurar a maioria das artistas, basta vermos o caso de Chiquinha Gonzaga que, mesmo com seu grande talento, sofreu preconceitos em grande parte de sua vida ou da soprano Zaíra de Oliveira que ganhou medalha de ouro no concurso de canto do Instituto Nacional de Música, no Rio de Janeiro e, por ser negra, não recebeu o prêmio que lhe cabia: uma bolsa de estudos na Europa. Poucos anos depois desse fato lamentável, surgiram as primeiras cantoras/pesquisadoras do folclore nacional. As cariocas Helena de Magalhães Castro, Elsie Houston, Celeste Leal Borges e Jesy Barbosa, as pernambucanas Stefana de Macedo e Amélia Brandão Nery e a amazonense Olga Praguer Coelho (falecida em abril passado, aos 98 anos), todas radicadas na então Capital Federal, ousaram quando passaram suas carreiras artísticas de amadoras para profissionais.

Até a primeira Miss Ipanema, eleita em 1929, a carioca Laura Suarez, aderiu às suas colegas. 

Todas eram cantoras, compositoras, arranjadoras e, em alguns casos, professoras de violão. O instrumento deixava de ser marginalizado para ser companhia obrigatória nos recitais em que as jovens artistas tomavam parte.

A esse grupo, Helena vai dar sua contribuição, mesmo de São Paulo, quando passa a se apresentar, em julho de 1928, na Rádio Educadora Paulista. Ao seu lado, outros nomes femininos revelados na ocasião: de Dolly Ennor, Zezé Lara, Sonia Carvalho, Rachel Freitas.


Gravações fonográficas

Em 20 de maio de 1930, Helena entrava nos estúdios da gravadora Victor de São Paulo para gravar seu primeiro disco. Nessa época, ainda eram fabricados os discos 78 rotações por minutos (rpm), os chamados discos de cera, com uma música em cada lado. No lado A ficou registrado o samba-canção de Gáudio Viotti, X. Y. Z. e J. Canuto “Teus olhos me contam tudo”; o lado B trazia o samba de Ary Kerner “Morena cor de canela”, música gravada anteriormente pelo cantor Sylvio Salema e pela cantora Elsie Houston.

Nos discos alternava seu nome como em “Helena P. de Carvalho" ou “Helena de Carvalho.



Entre 1930 e 1931, gravou 7 discos e 14 músicas nas grvadoras Victor e Columbia. Os compositores eram os nomes de destaque da época como Napoleão Tavares, o também cantor Jayme Redondo, Ary Kerner e os veteranos Chiquinha Gonzaga e Marcello Tupynambá. Foi versátil em sua pequena discografia.

Sua voz, clara e harmoniosa, possuía, como se falava na época, brejeirice.

Dominava bem os sambas e marchinhas que interpretava. Basta ouvirmos “Num sorriso dos teus”, samba canção de Napoleão Tavares e Jayme Redondo, que teremos sua interpretação destilando romantismo e uma sutil sensualidade; “Sou morena”, Canção de Chiquinha Gonzaga e Viriato Correa, onde ela é brejeira e sedutora ou em “Nhá Carola”, marcha de Petit (Hudson Gaya) que, ao lado do cantor Pilé, encarna a caipira engraçada que busca casamento, mas finge desdenhar do seu amado.

Em todas as músicas a cantora imprimia uma interpretação romântica, mesmo em estilos diferentes.


Esse Jeitinho que Você Tem

Não tardou para que seu talento fosse cada vez mais reconhecido e divulgado. Em 1931 é convidada a participar do primeiro filme musical feito no Brasil.
E cabe a ela ser a primeira cantora a aparecer no filme, sendo apresentada pelo poeta Guilherme de Almeida. Acompanhada ao piano canta, de seu repertório, a toada “Esse jeitinho que Você Tem”, de Marcello Tupinambá, com um ritmo mais lento, mais romântico.


Helena Pinto de Carvalho em cena do filme Coisas Nossas, 1931.
Revista O Cruzeiro.
Arquivo Nirez.




Após as filmagens dará entrevista à revista “A Platea”, de São Paulo.
Em sua monografia, Thais transcreveu a matéria, onde se lia que Helena estava “elegantíssima numa criação parisiense em cor verde veio até o nosso ‘bureau’ de trabalho, em companhia do seu esposo Sr. Paulo Pinto de Carvalho”.

Perguntada sobre a experiência de representar para uma câmera, a cantora respondeu: “Fiquei nervosíssima”.

Sobre o futuro: “Eu não alimento programas no meu cérebro. Em todo caso, se meu trabalho agradar e a fabrica novamente me chamar, não tenho motivos para recusar o convite. A arte é uma coisa tão linda”.

Em relação ao futuro do cinema brasileiro, afirmou que acreditava em “um futuro brilhante para o cinema nacional. É claro que não são nas capitais, cuja gente muito ‘rafineé’ e cheia de historias, há de sempre encontrar aqui ou ali um senão para criticar. Mas como o Brasil não é formado pelas capitais e sim, ele é todo esse aglomerado quase infinito de vilas e cidadezinhas, que se espalham do Amazonas ao rio Grande do Sul, eu creio que não exagerei, se disser que tenho certeza do triunfo da nossa cinematografia”.

Helena afirmou que o canto sempre foi um de seus maiores prazeres, principalmente a canção brasileira.

A entrevista segue:
“E qual é o seu maior sucesso? Indagamos.

Mme. Pinto de Carvalho teve um olhar de modéstia. Para encoraja-la, nós lhe dissemos que as mulheres bonitas não gostam nunca de falar de si. Acham mais interessante que os outros digam. Mme sorriu afinal se decidiu:

- Acho que fui ouvida com muito carinho, em “Jeitinho que você tem...” Alias, está é minha canção preferida”.


Estrela Cadente
Sua participação nos rádios continuou. Nos anos seguintes, ficou mais escassa por conta de excursões artísticas pelo Brasil e, segundo o pesquisador Abel Cardoso Junior, Europa. Aliando suas atividades artísticas, trabalhava como funcionária pública ao lado do marido como chefes na Seção Contabilidade e Departamento de Municipalidades de São Paulo.

Durante muitas décadas, pouco ou nada se soube sobre Helena. Em 1988 a empresa Revivendo, situada em Curitiba e especializada em relançar gravações de nomes da MPB da Época de Ouro, lançou o LP intitulado “Jóias de Nossa Música” enfocando Mário Reis, Moreira da Silva, Sônia Carvalho e Helena Pinto de Carvalho. Dos três nomes, somente Helena deixava uma lacuna sobre seu paradeiro. O próprio organizador das biografias contidas no disco, Abel Cardoso Junior, desconhecia onde ela estaria. Essa curiosidade foi desfeita mais de vinte anos depois, quando a jovem pesquisadora Thais Matarazzo, de São Paulo, resolveu pesquisar sobre as cantoras dos anos 30. A descoberta do paradeiro da cantora veio acompanhada de uma surpresa.

No dia 5 de dezembro de 1937, um domingo, às 23 horas, Helena sentiu-se mal. Segundo Vera, sua sobrinha que na ocasião contava com 11 anos e se encontrava em sua casa, em entrevista à Thais quase 60 anos depois, afirmou que sua tia deu um grito muito alto e foi encontrada deitada na cama, já morta. Mais surpreendente foi a causa: enfarte fulminante. Ela tinha 29 anos.

Embora os jornais tivessem lamentado a perda de um nome de peso do radio paulistano, integrante do elenco da Rádio Cultura, seu nome foi sendo esquecido através dos anos, devido a pouca memória de nosso país.

Assim como Yolanda Osório e Ita Cayubi, Helena Pinto de Carvalho foi uma das promessas lançadas em disco no longínquo ano de 1930. Como suas colegas, não decepcionou. Teve, até, mais sorte que muitas dela, uma vez que o esposo era seu fã numero um e grande incentivador, ao contrário dos demais conjugues da época, que “aposentavam” suas esposas da carreira artística através do casamento. Poderia ter sido uma socialite dos dourados anos 30, usando o título de nobreza de seu pai. Ao contrário, abraçou o samba e a marchinha e fez do cateretê, sua canção favorita; ritmos que ela tão bem dominou e interpretou seja nas capitais ou nas cidades do interior, pelo país afora. E sempre se negando a cantar estilos estrangeiros, numa valorização à música popular brasileira.
Na leva de jovens e modernas cantoras que a safra de 1930 lançou, e que foi liderada pela iniciante Carmen Miranda, Helena saiu-se de forma notável.

Sobre como seria sua carreira, caso a morte não a tivesse levado tão cedo, Thais responde: “Helena era uma cantora eclética, não tinha filhos, seu marido era aquiescente com sua carreira, sempre que podia se apresentava em shows de teatro, com outros cantores, acho que ela continuaria cantando e atuando talvez na televisão, não em cassinos, por que ela era membro da alta sociedade, ainda com tabus”.

Helena Pinto de Carvalho em 1935.
Jornal Diário da Noite.
Biblioteca Nacional.






Agradecimento:
Arquivo Nirez
Arquivo Thais Matarazzo

Bibliografia:
JUNIOR, Abel Cardoso. Jóias da Nossa Música. Curitiba, 1988.
MATARAZZO, Thais. Helena Pinto de Carvalho. São Paulo, 2003.





domingo, 15 de junho de 2008

Crônica de Thais Matarazzo

É com grande satisfação que apresento aqui uma crônica escrita por minha amiga Thais Matarazzo.

Thais é engenheira e está estudando jornalismo. Há vários anos vem se dedicanco ao resgate de nossas cantoras da Fase de Ouro do Rádio, tanto de São Paulo como do Rio de Janeiro.

Aqui, ela nos conta sobre o encontro que teve com a inesquecível Aurora Miranda no texto "A Outra Pequena Notável".




A OUTRA PEQUENA NOTAVEL

Por Thais Matarazzo
S. Paulo, 1º-10-2007
Publicado em 3/10/2007, pelo INOVE


“- Alô, alô, senhores ouvintes, a sua PRA-9, Rádio Mayrink Veiga, tem o prazer de anunciar mais uma audição com a ‘Pequena Notável’, Carmen Miranda...”. Era assim que nos idos anos 30, o locutor, ou melhor usando o termo da época o “speaker”, César Ladeira anunciava os cantores e cantoras ante ao microfone da referida emissora carioca.

Carmen Miranda juntamente com Francisco Alves foram os grandes azes do rádio brasileiro. Mais, naturalmente, tínhamos outros artistas que não deixavam por menos... Entre estes está Aurora Miranda, minha cantora preferida daquela época.

Em 1934, Carmen acompanhada pelo Bando da Lua, foram realizar uma temporada artística em Buenos Aires, atuaram na Rádio Belgrano, poderosa estação Argentina da época. Aurora, irmã de Carmen, ficou no Brasil e além de atuar no seu “quarto de hora” precisou substituir a mana; então o “speaker” César Ladeira (o maior locutor de rádio do Brasil), que adorava criar slogans para os cantores, anunciou: “- Alô, alô, srs. ouvintes agora ouviremos ‘a outra pequena notável’...”, e o slogan pegou, Aurora passou a ser conhecida como a “A outra pequena notável”.

Seu timbre de voz é mais romântico e suave, afinadíssima! Depois de Carmen foi à cantora que mais gravou discos no Brasil na década de 30. Seu primeiro disco saiu em junho de 1933, pela gravadora Odeon, com a marcha junina “Cai, cai, balão” (Assis Valente) e o samba “Toque de amor”, cantando em dueto com Francisco Alves, que se dispôs a gravar com a novata cantora. Aurora era uma promessa, irmã da inigualável Carmen Miranda! Não era qualquer uma!

Seu primeiro sucesso relativo aconteceria no carnaval do próximo ano com a marcha “Se a lua contasse” de Custódio Mesquita. Durante o período de 1935 a 1939, Aurora viajou artisticamente quatro vezes para Buenos Aires, acompanhada por Carmen e o Bando da Lua, sempre obtendo êxito.

As comparações eram inevitáveis, Aurora parecia não se importar com isso. Conformava-se em ser Aurora Miranda, a irmã da Carmen Miranda. De temperamento alegre e tímido Aurora fez o Brasil inteiro cantar o Rio de Janeiro como a “Cidade Maravilhosa”, marcha que o compositor André Filho deu a ela em fins de 1934. Ganhou o 2º lugar no concurso oficial de sambas e marchas do Rio de Janeiro em fevereiro de 1935.

Em abril de 1939 Carmen é convidada a ir para os Estados Unidos. Aceito o convite parte junto com o Bando da Lua para temporada de 16 meses. Aurora continuou sua carreira no Brasil, deixou a Rádio Mayrink Veiga e foi para a Rádio Tupi, também passou a cantar no lendário Casino da Urca. Neste ínterim, o cupido entra em cena e Aurora conheceu aquele que viria a ser seu futuro marido Gabriel Richaid.

O casamento se realiza em setembro de 1940, tendo como madrinha a irmã Carmen e o Dr. Paulo Machado de Carvalho, diretor da Rádio Record de S. Paulo, onde as irmãs costumavam fazer temporadas pré-carnavalescas. Como dizia o sábio jornalista Mauro Pires, Aurora se “aposentou pelo casamento”, deixou a carreira de lado, passando a cuidar do seu lar.

Em 1942, Aurora e seu marido vão ao encontro de Carmen e Dª. Maria Emília, a mãe, nos Estados Unidos, por influência de Carmem, ela passa a se apresentar em alguns night-clubs, e também faz pontas em alguns filmes, dentre todos, o que ela ganhou maior destaque foi em “Three Caballeros”, que no Brasil ganhou o título de “Você já foi a Bahia”, de 1945. Aurora aparece na famosa cena com o Pato Donald e Zé Carioca, cantando e dançando o samba “Os quindins de yayá” (Ary Barroso), a cena se passa na Bahia e ainda conta com a presença dos rapazes do Bando da Lua, tendo destaque para Aloísio de Oliveira (líder) e o violonista Zé Carioca, que inspirou Walt Disney a criar o personagem do papagaio homônimo.

Em fins de 1951, Aurora volta para o Brasil juntamente com seu marido Gabriel e com dois filhos que nasceram na Califórnia: Gabriel Jr. e Maria Paula. Volta a cantar por um tempo, grava alguns discos e abandona a carreira definitivamente. Com certeza Aurora deixou sua bela voz registrada na memória da música popular brasileira, nas mais de 150 gravações que fez.

Conheci Aurora Miranda no verão de 2001, no Rio de Janeiro, para mim foi uma enorme felicidade, pois como já relatei, é minha cantora preferida. Quando cheguei ao seu apartamento, no bairro do Leblon, acompanhada de minha mãe e irmã, Aurora estava sentadinha no sofá. Ela sorriu para nós três. Acho que pensou que minha mãe era sua fã. Então expliquei que no caso era eu mesma. Disse da minha admiração pela sua voz, por sua devoção com a irmã Carmen, etc. Ela ficou muito feliz, segurou a minha direita durante todo tempo em que ali permaneci; já não estava se lembrando muito das coisas e já não falava muito bem. Mais senti forte seu sentimento de gratidão, por ter se lembrado dela. Ela percebeu que também foi uma cantora muito importante e que tinha uma fã individual só para ela, não precisava dividir com Carmen...


Thais e Aurora Miranda.


Carminha, Thais e Cecília Miranda (sentada), irmã de Carmen e Aurora Miranda.





quarta-feira, 9 de janeiro de 2008

Jesy Barbosa, 20 Anos de Saudade

Esse meu blog está se iniciando com homenagens póstumas. Mas elas são merecidas.

Quero enfocar nessa postagem uma cantora que descobri em 1989. Eu procurava outra intérprete quando me deparei com sua foto na capa de um LP. Era um disco relançando gravações feitas entre 1929 e 1931, aproximadamente. Os outros intérpretes a dividirem com ela esse LP eram Elisinha Coelho, Sylvio Caldas e Breno Ferreira.

Seu olhar meigo e terno me cativaram e, depois de ouvir sua voz e como interpretava as músicas, tornei-me fã.

Seu nome é Jesy Barbosa. Hoje, injustamente esquecida. Mas, a maioria das grandes intérpretes de nossa música passada está em igual situação. Meu medo é tornar esta página um pouco amargurada, mas farei força para que seja o contrário. Porém, a verdade tem que ser dita.

Jesy foi o grande nome feminino escolhido pelos executivos da gravadora Victor quando resolveram instalar uma filial aqui no Brasil, especializada em nossa música. Era ela o nome forte para chamar a atenção do público.

Suas pimeiras gravações foram Medroso de Amor, samba-canção de Zizinha Bessa e Olhos Pálidos, canção de Josué de Barros. Jesy fez a gravação no dia 11 de Setembro de 1929 e o disco foi lançado em Novembro deste mesmo ano.

Em 1930 foi eleita Rainha da Canção Brasileira, vencendo nomes de peso como Zaíra de Oliveira, que ficou em segundo lugar, e a jovem iniciante Carmen Miranda que, demonstrando coleguismo e amizade, ao ver que estava fora do pelito juntou-se à torcida da futura vencedora.

Em Abril de 1933, nossa artista é entrevistada pela revista Vida Doméstica. O título da reportagem, poético como a entrevistada, é significativo em sua vida - Violão, meu companheiro. Nella, Jesy afirma "...sou campista. Quero muito bem á minha terra...nasci mesmo no coração de Campos." À pergunta "...e esse violão invejável porque os seus dedos longos o acariciam, como entrou na sua vida?" ela respode "Não entrou. Elle já estava. Quando me conheci por gente, elle era mais alto do que eu, empunhava-o pequititinha...".

- Estás brincando; isso é uma história lindamente inventada. A entrevista segue... Os grandes olhos luzentemente negros de Jesy Barbosa pousam cheios de uma claraverdade na observação, num gesto reprehensivo de confirmação. E a bocca, onde dormem todas as sonoras harmonias das vocalizações triunphaes das grandes noites de seratas d´honore, com apllausos febricitantes e coroações sagradoras, deixa cahir, uma a uma, as palavras emotivas de uma evocação que põem um lugar antigo dentro da alma:


- Era o violão de mamãe.

Seu pai, Luiz Barbosa (não confundir com o cantor) era poeta, tendo no violão um um camarada das madrugadas lyricas de rapaz, cheio de sonhos e de talento. Em uma época onde o instrumento não pertencia às rodas aristocráticas, o jovem apaixonou-se por uma moça da sociedade de Campos, Srta. Victoria Barbosa. Sentindo que era correspondido em seu amor, Luiz tratou de esconder da amada o violão. Noivaram e, quando ja estavam casados, foi tomado de grande surpresa ao ver entrar em sua casa um violão! Sua esposa, entre sorrisos, confessou que também tocava o instrumento e escondera esse detalhe como o noivo havia escondido sua predileção artística. Dessa união de grandes sensibilidades artísticas e o determinismo da belleza se affirmaria quando ao inicial-a a senhora sua mãe no manejo do violão, alcançaria dentro em pouco em o meio do Rio de Janeiro, as glórias de precursora da divulgação de nossos cantares regionaes atravéz do radio, cujos programmas eram recem irradiados.

Estudiosa, sem vaidade continuou progredindo sempre, e "Rainha da Canção" (sic) , proclamada em memorável pleito, cursava as aulas de canto com Madame Show, que a iniciou e a formou nessa arte.

Ao pedirem que lhes autografe a entrevista, com uma citação sobre ela própria, a cantora escreve:

"Quando nasci Fatalidade mandou que Tristeza me puzesse uma cantiga no coração" .

Jesy Barbosa
Também era poetisa e jornalista. O poeta Orestes Barbosa definiu Jesy como uma figura macerada, com os olhos esquecidos no rosto triangualr, e adicção perfeita, tirando os efeitos originais, falando dentro da música, preferindo as canções de emoção e pensamento - a última romântica num raro grupo que resiste na última trincheira da valsa que é a musicalidade da carta de amor...

Jesy Barbosa nasceu em 15 de Novembro de 1902 e faleceu No Rio de Janeiro em 30 de Dezembro de 1987, aos 85 anos.

Fontes: As fotografias de Jesy Barbosa pertencem ao Arquivo Nirez, de Fortaleza-Ceará.

A primeira fotografia é a original que Jesy presenteou à redação da revista Phono-Arte, para divulgação de seus discos, em 1930. Hoje a foto e a revista são de propriedade de Nirez.

Nela, lê-se:

A Rainha da Canção Brasileira

Artista Victor

Jesy Barbosa



A segunda foto faz parte da matéria publicada na revista Vida Doméstica, de 1933. Também faz parte do Arquivo Nirez.

Pesquisa de MARCELO BONAVIDES.


IMPORTANTE!
Se você gostou das matérias e for copiá-las, FAVOR colocar o crédito das fotos e do texto, bem como o nome do pesquisador.
Obrigado.

terça-feira, 8 de janeiro de 2008

23 Anos sem Aracy Côrtes

Para um amante ardoroso da Música Popular Brasileira é impossível citar Aracy Côrtes sem se emocionar. O seu nome tem um ar de divindade e impõe respeito.
Para mim, Aracy Côrtes é sinônimo de MPB. Sua importância para a nossa cultura ainda não foi devidamente reconhecida pela maioria dos brasileiros, apesar das belas homenagens feitas a ela. Ouço suas gravações e me sinto atraído pelas menos famosas, aquelas oriundas dos palcos da Praça Tiradentes onde ela foi rainha, onde seus agudos e brejeirice enlouqueciam e hipnotizavam platéias. Suas histórias e lendas fascinam, mas o meu interesse maior é a verdadeira Aracy.

Muito se falou sobre sua fama de briguenta e desbocada. Fico me perguntando se ela não tivesse essa personalidade forte, será que teria triunfado numa época machista? Em uma época em que negaram o prêmio principal da Academia Nacional de Música à sua primeira colocada, a grande Zaíra de Oliveira por ela ser negra? Em uma época onde se uma moça não tivesse o pulso forte e a convicção que era talentosa conseguiria ter seu talento artístico reconhecido? Aracy percebeu isso e defendeu seu espaço.
Uma vez ela comentou: “Já pensou se eu tivesse nascido americana?”. Talvez tivesse seu temperamento cultuado e não criticado. Afinal, divas estrangeiras têm o direito sagrado de serem temperamentais e, muitas vezes, nós achamos isso o máximo. Já nossas divas parecem não possuir esse “privilégio”.
O talento e legado de Aracy segue engalanado e digno. A fragrância da Linda Flor fez-se música e podemos aprecia-la em suas gravações.

Entre inúmeros sucessos, coube a ela lançar e imortalizar, em 1928, o primeiro samba-canção "Linda Flor", gravado no começo de 1929 com o título de "Yayá" e mais conhecido como Ai Yôyô.
No dia 08 de Janeiro de 1985 Aracy falecia.

Como escreveu Evandro Teixeira no Jornal do Brasil por ocasião da data, "Quando seu corpo sair do Teatro Recreio (sic), onde está sendo velado desde ontem, para o Cemitério São João Batista, onde será sepultado às 9 horas de hoje, mais que uma época, toda uma arte estará partindo com ela."

PS. O corpo de Aracy foi velado no Teatro João Caetano. O teatro recreio já havia sido demolido.


















Agradeço ao Acervo Nirez pela foto do Jornal do Brasil e ao meu amigo Carlos Branco que me ajudou na revisão.

A foto de Aracy jovem (aos 20 anos, em 1924) pertence à capa do livro "Aracy Côrtes - Linda Flor", de Roberto Ruiz, publicado em 1984 pela Funarte, em comemoração aos 80 anos de Aracy.

Pesquisa de MARCELO BONAVIDES.

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segunda-feira, 7 de janeiro de 2008

O Início.

Olá, me chamo Marcelo e não sei bem como iniciar essa apresentação. tenho medo de ser muito formal ou informal em excesso. Enfim, melhor ir deixando as palavras e idéias se manifestarem.

Eu trabalho como ator e também sou pesquisador musical. Minha grande paixão, há 20 anos, é conhecer e resgatar as atrizes/cantoras populares da metade do século XIX( 1859) até a década de 1930. Coleciono gravações e discos 78 rpm (os chamados discos de cera) desde o início da indústria fonográfica em nosso país (1902). Partindo disso, também pesquiso o Teatro de Revista desse período e a Música Popular Brasileira, e também sou um amante do cinema. Gosto dos cantores e sou fã de vários. Porém, notei que a figura feminina no período da Belle Époque brasileira, e até antes, era pouco ou quase nada mencionada. Ao buscar mais informações sobre essas mulheres, me deparei com poucas publicações. Muitas delas apenas citando seus nomes e nada de suas carreiras. Insisti e consegui descobrir uma porta para uma época muito interessante, com personagens mais interessantes ainda. A artista que me proporcionou esse contato se chama Pepa Delgado. O interessante é que Pepa viveu de 1887 até 1945 e, mesmo 48 anos depois de sua partida, ela inspirava um jovem de 17 anos a ter o grande desejo de escrever sua biografia e a de suas colegas. Isso deu início ao contato com sua família e a uma amizade muito especial travada com seu filho e neta. Foram eles que me doaram um rico material e me cederam informações preciosas para que eu começasse um quebra-cabeça, cuja imagem esboçada trazia outras personagens tão interessantes quanto Pepa.


Outras artistas são resgatadas por mim.

Faço questão de ir buscar as que, hoje, estão mais esquecidas. Nosso país é apontado como "sem memória". Eu até concordo com isso. Vide as dificuldades que nós, pesquisadores, temos de encontrar certos dados. Mas há pessoas (muitos jovens, diga-se de passagem) que se dedicam ao resgate nos mais variados setores, sejam por paixão ou profissionalmente; uma nova realidade começa a surgir. Entre esses jovens destaco Thais Matarazzo Cantero.



Não nos esqueçamos dos "mestres" como Jota Efegê, Ary Vasconcelos, Abel Cardoso Junior que muito contribuiram, e continuam contribuindo com suas obras, pelo conhecimento de de nosso passado musical. E, também, os atuais "mestres" que tanto nos ajudam, como Maria Helena Martinez Correa e Nirez (Miguel Ângelo de Azevedo).



Quero usar esse espaço para expor minhas idéias e pesquisas.
Grande Abraço a todos!
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