sexta-feira, 17 de fevereiro de 2012

A INFÂNCIA DE CARMEN MIRANDA

A NOITE Illustrada
A edição de 04 de maio de 1932 trazia o breve e interessante relato de Carmen Miranda sobre sua infância:

Quando o Mundo é um parque de brinquedos...

A infancia ... Deliciosa, quadrada, cheia de gratas recordações, da qual não há quem não se lembre com saudade... Dias risonhos em que a vida nos parece uma festa permanente e o mundo um grande parque de brinquedos, como dizia illustre escriptor francez. Cada um de nós guarda sempre, bem vivas, na memoria, recordações de episódios interessantes, uns emotivos, outros comicos e pitorescos, da nossa ingenua e despreoccupada infancia. Reviver, através de uma reportagem illustrada, episodios dessa natureza desenrolados na infancia de figuras hoje em evidencia nos circulos artisticos, afigurou-se-nos de vivo interesse para os leitores de "A NOITE Illustrada".

Carmen Miranda, procurada, em sua residencia, por um dos nossos redactores, deu busca ao seu arquivo fotografico e apresentou-nos um retrato, tirado aos tres anos de idade, inquirindo:

- Que tal?

Demoramos o olhar na fotografia. Carmen Miranda foi uma bela criança. Mas quem visse aquele rostinho redondo, aqueles olhos cismadores, aquele ar de acanhamento, jamais pensaria que ela, mais tarde, viesse a se transformar na criatura enfeitiçante, trefega, desenvolta, irrequieta e cheia de "it", que é a aplaudida intrérprete de nossa música típica. Carmen Miranda falou, em seguida, da sua infância,relatando um episódio curioso. Tinha cerca de cinco anos de idade e sua família residia, então, no primeiro andar do prédio n. 100 da rua da Candelária. Em frente, noutro sobrado, morava uma família que tinha vários petizes, dos quais, a futura criadora de Pra você gostá de mim logo se fez camarada.

Das sacadas, desenvolviam longas conversações, comentando acontecimentos que, para eles, tinham cunho de casos sensacionais.

- Aqui em casa há uma papagaio que fala...
- Mas eu tenho um velocipede e você não tem...
- Não me importo. No domingo vou usar um vestido novo...
- Os meus vestidos todos são novos. E as minhas botinas de cano também...
- Mamãe não quer que eu fique com o cabelo grande como o seu... Vou cortar os cachos...

Um dia, depois de uma demorada palestra nesse, tom, Carmen entendeu de fazer inveja aos vizinhos, mostrando-lhes uma nova boneca que lhe fora presenteada. Mas se debruçou de tal modo na sacada, para melhor exibir a preciosa dádiva, que perdeu o equilíbrio e se precipitou do primeiro andar ao solo...

-Sofreu alguma lesão grave? Alguma fratura? - indagamos, interrompendo a narrativa.

- Qual, nada! Tive uma sorte assombrosa. Havia, em baixo, um rolo de fios telefonicos que amorteceuo choque da queda e me livrou, talvez, da morte... Dois dias depois, eu já estava completamente restabelecida...O pior foi o susto. Fiz um berreiro enorme. Gritei de tal modo e com tal força, que até desconfio que nessa ocasião foi que descobriram minha vocação para o canto.

Riu jovialmente e acrescentou:

- Também esse foi o único "caso sério" da minha infância. Dela só tenho recordações felizes e agradáveis. Cada boneca nova era um dia de festa para mim.

Ah! se eu pudesse ser de novo como outrora...

- Não se sente feliz?

- Sinto-me, sim. Mas quando se é criança, a felicidade é feita de pequeninos nadas... Mais simples, mais completa, mais fácil de realizar e mais dificil de destruir...





Carminha, aos 4 anos, em 1913.


Carmen em 1932, aos 23 anos.





Agradecimento ao Arquivo Nirez

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