segunda-feira, 7 de maio de 2012

CARNAUBEIRAS DA CEARÁ, 1938



Em 30 de abril de 1938, o jornalista Raimundo de Menezes escreveu uma crônica para a seção Coisas e Aspectos do Brasil, especialmente para na revista Carioca. Ele enfocava as carnaubeiras do Ceará. As fotos foram feitas por M. Guilherme.
Eis o artigo na íntegra.


COISAS E ASPECTOS DO BRASIL
Carnaubeiras do Ceará – A planta maravilhosa que Humboldt chamou de “árvore da vida”

A carnaúba é a árvore milagrosa do sertão cearense. Muito embora seja vista abundantemente em todo o nordeste brasileiro – do rio São Francisco ao Parnaíba – é, porém, em terras do Ceará, que vamos encontrá-la mais profusamente, às margens do Jaguaribe e do Acaraú.
A “corypha cerifera” (é este o seu nome cientifico) constitui uma das árvores mais úteis, senão a mais útil, da qual o sertanejo tudo aproveita, afirma-nos o cientista Tomás Pompeu.
Palmeira, cujo crescimento é deveras moroso, chega a ter oito a dez metros de altura, somente aos cinqüenta anos de idade.
Prolifera espantosamente, com uma fecundidade que parece um milagre do céu, na terra comburida.

Legenda1: Quando a seca vier, o chão será nu e duro sob o céu coruscante
e só a carnaubeira há de  permanecer verde e moça no ar parado.
Legenda 2: À margem das estradas e à beira dos rios elas se perfilam,
espalhadas pelo sertão do nordeste.


Sua resistência é tão notável, que, às vezes, após as queimadas dos roçados, quando atingida pelo fogo, surge impavidamente, em meio ao braseiro, apenas despida das suas palmas, tronco nu, porém capaz de rejuvenescer à carícia orvalhante das primeiras chuvas.
Não há casa no Ceará que não possua na construção, travessas, ripas e caibros, nos seus tetos, que não tenham sido feitos de troncos de carnaúbas.

A palhoça do sertanejo é levantada totalmente graças à árvore milagrosa: desde a cobertura, entrançada, de maneira magistral, com a palha, capaz de abrigar do maior pé d´água, até às paredes também resistentes, trabalhadas com palmas e troncos.
Para demonstrar a resistência férrea da carnaúba, é ainda Tomás Pompeu quem nos vai contar um exemplo digno de nota: “No lugar Fortinho, à margem do Jaguaribe, onde as marés penetram, há uma ponte assente sobre carnaúbas, construída em 1872, em perfeito estado de conservação”.



Nas secas longas que afligem, quando em vez, as populações rurais, a carnaúba é uma das únicas árvores que atravessam a calamidade vitoriosamente, servindo de alimentação às classes desprotegidas, que dos seus palmitos extraem vinho, vinagre e uma substância sacarina. Quase sempre, também serve de forragem ao gado faminto.
Sua tenaz resistência às secas já foi cantada em belos versos por poetas cearenses:

“Aberta ao sol a fronde rumorosa,
À seca que devasta o vale e a serra,
Sobrevives robusta e vigorosa.
Vendo-te, vê quem pelos campos erra
Que és o símbolo da alma valorosa
Do grande povo audaz da minha terra!”.

Do seu fruto, nas épocas normais de abundância, se faz uma farinha, usada geralmente, como condimento na arte culinária.
O seu tronco tem serventia, no sertão, para o conduto d´água, quando perfurado, substituindo, galhardamente, qualquer cano de ferro.
Suas raízes de pouca profundidade são utilizadas, com êxito, no tratamento das moléstias de origem sifilítica, como os preparados de salsaparrilha.
Das suas palmas, que se abrem ao vento, com um musicar estranho, enfeitando, numa festa constante, os céus descampados, o sertanejo inteligente arranca uma indústria proveitosa: fabrica primorosamente chapéus, que são uma maravilha de arte, urus, esteiras, colmo para casas,cordas, enchimentos de cangalhas...



A cera – o produto mais rico da carnaúba – é tirado das suas folhas. Aberta ao sol, cerca de quatro dias, as palmas, quando sacudidas, deixam cair um pó cinzento e, às vezes, esbranquiçado, que levado ao fogo, se derrete, e se coagula ao esfriar. Misturada ao sebo animal, serve para o fabrico de excelentes velas para iluminação, profusamente utilizadas pelas populações sertanejas.
A cera ainda é exportada, em grande escala, para a Europa e para os Estados Unidos, constituindo uma das principais fontes de riqueza do Estado do Ceará.
Os industriais estrangeiros aproveitam-na vantajosamente, entre outras, para a fabricação de discos fonográficos, em cuja confecção entra como matéria prima essencial de primeira qualidade.

Da árvore milagrosa tudo se aproveita e nada se perde: ainda dos talos das folhas se fazem colchões e camas, portas e janelas, à guisa de venezianas.
A palha produz ainda um sal álcali, empregado no fabrico do sabão.

Como se depreende, enfim, desta leve sumula, a carnaúba, no Ceará e no nordeste brasileiro, é a árvore prodigiosa que serve para tudo, sendo a sua utilidade simplesmente assombrosa, como fonte de riqueza ainda não racionalmente explorada.

(Revista Carioca, 30 de abril de 1938).


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Como vimos, a Carnaúba tem inúmeras utilidades, conhecidas há séculos.
O geógrafo e cientista alemão Alexander von Humboldt a chamava de árvore da vida. 

Alexander von Humboldt (1769-1859)

É interessante as várias formas em que a palmeira é aproveitada, inclusive na fabricação dos famosos discos de cera, que sempre ouvimos aqui no blog.
Desde o início da indústria fonográfica, foram usados alguns materiais para se obter um disco resistente e livre de ruídos. Justamente a cera de carnaúba foi um dos melhores encontrados.


O cientista Tomás Pompeu, citado na reportagem, me parece ser Tomás Pompeu Lopes Ferreira. Além de cientista, ele era poeta, contista, cronista e romancista, tendo escrito os versos do Hino do ceará, cuja melodia ficou a cargo do maestro cearense Alberto Nepomuceno. Tomás Pompeu nasceu em Fortaleza, em 16 de novembro de 1879 e faleceu na Suíça, em 15 de julho de 1913. 


Não consegui identificar o autor dos versos citados. Quem sabe não seriam de nosso cientista/poeta Tomás Pompeu...

Abaixo fiz um pequeno glossário de palavras contidas no texto. Algumas, não são usadas há décadas e outras, são típicos objetos do nordeste, talvez, desconhecidos em outras regiões.

Vamos a elas:

Comburida – Queimada.
Urú - Cesto feito com folhas de carnaúba, dotado de alças. 
Colmo – Tipo de caule.
Cangalha - Artefato feito de madeira ou ferro, normalmente acolchoado, que se coloca no lombo de cavalos, jumentos, burros... para pendurar carga. 
À guisa de – À maneira de.







2 comentários:

  1. Excelente matéria.
    Além de tudo, é a mais bela palmeira que existe!

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  2. Bela matéria, em Acaraú ainda temos muitas carnaubeiras, inclusive temos como simbolo na nossa bandeira.

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