terça-feira, 1 de maio de 2012

MÚSICAS E TRABALHO

Em 01 de maio de 1886, em Chicado (EUA), milhares de trabalhadores saíram às ruas para protestar contra as desumanas condições de trabalho e a excessiva carga horária a qual eram submetidos, 13 horas diárias. Isso paralisou o país.
No dia 03, houve um confronto com a polícia, que se intensificou no dia seguinte, com a morte de alguns manifestantes. Esse acontecimento ficou conhecido como a Revolta de Haymarket.
Ao longo dos anos, o dia 01 de maio passou a ser considerado o marco da luta por melhores condições e uma jornada de 08 horas diárias. A França foi o primeiro país a adotar a data, em 1919, seguida pela Rússia (1920).
No Brasil, a data passou a ser comemorada em 1924, durante o governo de Arthur Bernardes.


Abaixo, duas profissões de outrora. O acendedor de lampiões que, com o surgimento da iluminação elétrica, veria sua profissão se extinguir. Uma nova profissão que surgia era a do limpa-trilhos, garantindo que os bondes não descarrilhassem ou encontrassem obstáculos em seu trajeto. É provável que vários acendedores de lampiões passariam a adotar a nova profissão, limpando os trilhos dos bondes.


Acendedor de lampião. Nosso Século. 


Limpa-trilhos. Nosso Século.


Escolhi algumas músicas para falar sobre esse dia.
São profissões diferentes, citadas em algumas composições, ou simplesmente a negação da malandragem para abraçar a vida de trabalhador.


A COZINHEIRA
Pepa Delgado, famosa atriz e cantora das primeiras décadas do século XX, gravou essa cançoneta.
Provavelmente fazia parte de alguma peça e retrata uma cozinheira de mão cheia, sem rival, que sabia preparar todos os quitutes apreciados por seus patrões.




Eu sou cozinheira
De tais feiticeira
Segredos não tenho
Eu sei o que fazer
Preparo temperos
Sou hábil e lampeira
Fazendo petiscos
Eu sou pra valer
Correndo a cidade
Não vejo rival
Não há quem me pegue
Num falso arrastão
Portanto, vaidosa,
Eu digo, é geral
Eu sou cozinheira de salão

Arroz, carne assada
Farofa cheirosa
Galinha ensopada,
Fritada, gostosa
Quem tem mais sardinha
Garoupa ou robalo
E outras coisinhas
Que é mesmo um regalo?

A minha patroa
Não come maxixe
O dono da casa
Tem birra ao jiló
A vida, só leva,
A dizer: Que apetite!
E gosta de muito comer mocotó
Por tanto, distante da tal confusão
E tudo isto é feito
Pra se consertar
Fiteira, garbosa
E com profusão
Eu vou pra cozinha
Inda preparar

Arroz, carne assada
Farofa cheirosa
Galinha ensopada,
Fritada, gostosa
Quem tem mais sardinha
Garoupa ou robalo
E outras coisinhas
Que é mesmo um regalo?

Se algum dos senhores
Fizerem pedido
Há pirão, eu digo
Num tom altaneiro
Não tenho vergonha
Se eu vivo catita
E gosto um trabalho
Por pouco dinheiro
Apronto jantares
Com um bom prazer
A todos agrada
O meu bom paladar
Por isso me obriga
A ter o dever
De ser cozinheira no trabalhar

Arroz, carne assada
Farofa cheirosa
Galinha ensopada,
Fritada, gostosa
Quem tem mais sardinha
Garoupa ou robalo
E outras coisinhas
Que é mesmo um regalo?


A VADIAGEM
Francisco Alves compôs esse samba falando sobre o malandro que abandona a vadiagem para se dedicar ao trabalho. Como prêmio, fora a vida honesta, ele recebe os carinhos de sua mulher. 




A vadiagem eu deixei
Não quero mais saber
Arranjei outra vida
Porque deste modo
Não se pode mais viver

Eu deixei a vadiagem
quando eu digo, ninguém crê
Quem já foi vadio um dia
é vadio até morrer
Mas, pouco importa
digam tudo o que quiser
Eu deixei a vadiagem
por causa de uma mulher

Quando eu saio do trabalho
pensativo no caminho
Que saudade da navalha
Que saudade do meu pinho
Mas, chego em casa
é beijinhos sem ter fim
Vale a pena ser honesto
pra poder amar assim.



PROFESSORA
Bem cedo os trabalhadores pegavam bondes e trens e iam a seus destinos diários. Entre eles, uma professora que despertou a paixão de um boêmio. Enquanto ela iniciava o dia, indo ao trabalho, ele pegava o mesmo trem, voltando da orgia.




Eu a vejo todo dia
quando o sol mal principia
a cidade a iluminar
Eu venho da boemia
e ela vai, quanta ironia,
para a escola trabalhar
Louco de amor no seu rastro
Vaga-lume atrás de um astro
Atrás dela eu tomo o trem
E no trem das professoras
onde umas vão sedutoras
eu não vejo mais ninguém
Essa operária divina
que no subúrbio ensina
as criancinhas a ler
naturalmente condena
na sua vida serena
o meu modo de viver
Condena porque não sabe
que toda culpa lhe cabe
de eu viver ao Deus dará
Menino querendo ser
para com ela aprender
novamente o bê-a-bá.



BONDE DE SÃO JANUÁRIO
Durante o Estado Novo (1937-1945), o Departamento de Imprensa e Propaganda (DIP), orientado por Getúlio Vargas, procurava valorizar a imagem do trabalhador brasileiro, pois isso mostrava como o País estava se desenvolvendo, gerando propaganda positiva ao Governo. Os compositores eram orientados a criar músicas e versos que enaltecessem o trabalho. Nada de apologia da malandragem ou boemia, como antes. A figura do malandro, antes tão cantada e admirada, era agora marginalizada na música popular.
Nessa linha, Ataulfo Alves e Wilson Batista compuseram o samba Bonde de São Januário.




Quem trabalha é que tem razão
Eu digo e não tenho medo de errar
O bonde São Januário
leva mais de um operário
Sou eu que vou trabalhar

Antigamente eu não tinha juízo
mas resolvi garantir meu futuro
Veja você
Sou feliz, vivo muito bem
a boemia não dá camisa a ninguém
Vivo bem.

Em alguns livros e reportagens, aparecem os seguintes versos como sendo os originais, posteriormente mudados para a gravação:
"O bonde São Januário
leva mais de um otário
Sou eu que vou trabalhar..."

Porém, essa versão é negada pelo filho de Ataulfo Alves, o cantor Ataulfo Alves Junior, como vocês podem ler no blog DR. ZEM (http://zip.net/bytj4Y).



PEDREIRO VALDEMAR
Muitos pedreiros constroem casas, prédios, mas, nem sempre tem um lugar decente para morar ou podem entrar nos edifícios que eles construíram, depois da obra terminada. Essa desigualdade de classes foi cantada por Blecaute.




Você conhece o pedreiro Valdemar
Não conhece?
Mas eu vou lhe apresentar
De madrugada
toma o trem na circular
Faz tanta casa e não tem casa pra morar

Leva marmita embrulhada no jornal
Se tem almoço
nem sempre tem jantar
O Valdemar que é mestre no ofício
constrói um edifício
e depois não pode entrar.



ZÉ MARMITA
Outro operário que precisa acordar de madrugada para trabalhar. Aqui, enfrentando as dificuldades para se chegar ao emprego, com as sobras do jantar, ele esquece tudo jogando bola. Creio que hoje muitas pessoas não esqueçam suas realidades e lutam para melhorá-las. Mas, algumas ainda podem buscar o bate bola de meia ou algo parecido para esquecer de tudo. Creio que o personagem da música seja apresentado como simplório e acomodado. Felizmente, hoje as coisas mudaram um pouco e muitos abrem os olhos.




Quatro horas da manhã
sai de casa Zé Marmita
Pendurado na porta do trem
Zé Marmita vai e vem

Numa lata, Zé Marmita
traz a boia que ainda sobrou do jantar.
Meio dia, Zé Marmita
faz o fogo para a comida esquentar
E Zé Marmita, barriga cheia,
esquece a vida num bate bola de meia.



MARIA CANDELÁRIA
No oposto está uma alta funcionaria. Ocupando um cargo público, pago por Valdemar e Zé Marmita, e todos nós, Maria Candelária vive na mordomia e não conhece trabalho. Nem todos são assim, óbvio, mas a música é um exemplo de como a malandragem largou as ruas e invadiu as repartições públicas.




Maria Candelária
é alta funcinária
Saltou de paraquedas
caiu na letra O
Começa ao meio dia
coitada da Maria
Trabalha, trabalha
trabalha de fazer dó.

À uma, vai ao dentista
Às duas, vai ao café
Às três vai a modista
Às quatro assina o ponto
e dá no pé.
Que grande vigarista que ela é!



Músicas apresentadas:

A Cozinheira
Cançoneta gravada por Pepa Delgado e orquestra em 1910
Disco Columbia Record B-31, matriz 11.626
Lançado em 1912.
Obs. Esse disco foi um relançamento. Quando Pepa Delgado fez a gravação, em 1910, o disco foi lançado nesse mesmo ano com o número 11.626. A Columbia Record relançaria vários discos em 1912, começando a numeração com a letra "B".


A Vadiagem
Samba de Francisco Alves
Gravado por Ignácio G. de Loyola em 1926
Disco Parlophon 12.968-A, matriz 2412, lançado em junho de 1929
Acompanhamento da Orquestra Típica Pixinguinha-Donga
Obs. Esse samba foi gravado por Mário Reis no final de 1928 na Odeon, e pelo "Rei do Assobio" João Gabriel de Faria, em 1930, que assobiava o samba.


Professora
Samba de Benedito Lacerda e Jorge Faraj
Gravado por Sylvio Caldas em 08 de junho de 1937
Disco Odeon 11.608-A, matriz 5595, lançado em junho de 1938
Acompanhamento de Benedito Lacerda e seu Conjunto Regional


Pedreiro Valdemar
Marcha de Roberto Martins e Wilson Batista
Gravada por Blecaute em 15 de outubro de 1948
Disco Continental 15.982-A, matriz 1985, lançado em janeiro de 1949
Acompanhamento de Severino Araújo e sua Orquestra Tabajara


Zé Marmita
Samba de Brasinha e Luís Antônio
Gravado por Marlene em 1952
Disco Continental 16.670-A, matriz C-2989, lançado em janeiro de 1953
Acompanhamento de Zimbre e sua Orquestra


Maria Candelária
Marcha de Klécius Caldas e Armando Cavalcânti
Gravada por Blecaute em outubro de 1951
Disco Continental 16.502-A, matriz C-2760, lançado em janeiro e fevereiro de 1952
Acompanhamento de Severino Araújo e sua Orquestra Tabajara














Fontes:
Arquivo Nirez
Arquivo Marcelo Bonavides
Fotos: Nosso Século - Abril Cultural
DR. ZEM - http://is.gd/p0Asn5
Novo Milênio - http://is.gd/Lyz1cC
http://www.brasilescola.com/








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