quinta-feira, 31 de maio de 2012

GERALDO MAGALHÃES, 134 anos



Geraldo Magalhães foi um dos mais notáveis e populares cantores das primeiras décadas do século XX.
Nascido em São Gabriel, Rio Grande do Sul, em 31 de maio de 1878, começou a cantar nos chopps berrantes e cafés cantantes, que eram muito populares na vidara do século XIX para o XX. Esses locais eram bares onde havia um pequeno palco. Ali, as pessoas iam beber, conversar e apreciar as apresentações de artistas.
No Rio de Janeiro, Geraldo apresentou-se em lugares como Ao Chopp Grande, onde sua volumosa voz de barítono foi logo notada. Não foi somente nos palcos que ele se destacou, pois, várias vezes, saia fazendo serenatas pelas ruas.
Já conhecido pela cidade, fez sua estréia teatral na Rua do Lavradio, no Salon de Paris. Em seu repertório não faltavam os lundus e cançonetas, bem ao gosto da época. Daí, foi para o Largo da Lapa, no Alcazar Parque (não confundir com o outro Alcazar, que existiu até o final do século XIX). Foi nessa ocasião em que formou dupla com Margarita, ou Margherite, que se apresentava como castelhana e, ao seu lado, interpretava cançonetas picantes como o Dueto do Buraco.

Em nossa música, com destaque ao teatro de revista e os cafés concertos, a melodia inspirada aliada a versos extremamente maliciosos, sempre esteve presente. Esses versos variavam em seu teor de explicitação. Algumas vezes eram suavemente picantes, outras, bem carregados na pimenta e erotismo. Em 1902, quando se começou a gravar discos no Brasil, todos os ritmos e estilos de composições foram levados à cera. As chamadas trovas alegres, um nome fantasia para a músicas de duplo sentido, carregadas de sensualidade, tiveram um bom lugar na indústria fonográfica, como também o tinham na aceitação do público que freqüentava o teatro de revista.

Na metade da década de 1900, já famoso, Geraldo Magalhães forma, com a também gaucha Nina Teixeira, a dupla Os Geraldos. Foi sua mais famosa parceita. Juntos gravaram dezenas de músicas, algumas clássicos de nosso cancioneiro, como Sacy Pererê e Corta Jaca (Gaúcho), ambas de Chiquinha Gonzaga; ou Vem cá, mulata, de Arquimedes de Oliveira e Bastos Tigre.
Foi com Nina que ele foi até Paris e Lisboa, em uma bem sucedida tournée. Na capital francesa eles levaram o maxixe, que já tinha sido apresentado na década anterior pela atriz Plácida dos Santos (que, também era gaucha).

Geraldo Magalhães gravou sozinho bonitas canções, romanzas e temas populares.
No começo da década de 1910, desfez a parceria com Nina e começou a apresentar-se com a portuguesa Alda Soares, com quem viria a se casar.
Com Alda, passou a morar em Lisboa, abandonando a carreira em 1927.
Nessa mesma cidade ele faleceu, em 11 de julho de 1970, aos 92 anos.


Trovas Sertanejas
Canção
Disco Odeon Record 40.386
Acompanhamento de piano
Lançado em 1905



Que Valem Flores
Modinha
Disco Odeon Record 40.567
Acompanhamento de piano
Disco lançado em 1905




Margarida vai à fonte
Canção popular portuguesa
Disco Odeon Record 40.498
Acompanhamento de piano
Disco lançado em 1906







quarta-feira, 30 de maio de 2012

RUBENS SOARES, entre o Samba e o Boxe



Rubens Soares era um homem que despertava admiração. As pessoas ficavam em dúvida qual perfil admirar: o de boxeador (pugilista ou boxeur, na linguagem dos anos 30) ou compositor. Como era sabido, ele abafava a banca, ou seja, fazia sucesso nas duas categorias.

Nasceu no Rio de Janeiro em 29 de maio de 1911. Entre 1928 a 1945, lutou boxe na categoria peso médio. Foi compositor de sucesso, membro da Polícia Especial, treinador de cavalos e treinador de boxe.

Começou a ser notado no ringue, onde assustou ou levou ao chão, vários adversários em knock-out (nocaute, em linguagem atual). Quem torcia para ele ficava delirando na platéia, enquanto a turma que era contra permaneciam aborrecidos e desapontados. Em algumas ocasiões, terminada a luta no ringue, a mesma prosseguia do lado de fora, entre as duas torcidas. As pancadas eram distribuídas em todos, inclusive nos policiais que iam apaziguar os rapazes exaltados.
Em algumas ocasiões, embora menos freqüentes, era o próprio Rubens quem era chamado para decidir algumas lutas na Avenida, calçadas... Mas, o moreno das luvas sempre levava vantagem.

Depois, o micróbio do samba o pegou de jeito. Alguns não sabiam como, outros, afirmavam ser pela companhia de artistas como Francisco Alves, Mário Reis, Nássara, Lamartine Babo, os campeões no ringue da música.
Devido a essas influências, Rubens virou sambista. E dos bons.
Com a clássica caixa de fósforos como acompanhamento, ele compunha coisas incríveis, pelos locais onde freqüentava como o Café Nice, Trianon, Universo, que eram as sucursais do samba nos anos 30.
Nesses locais, ele era sempre visto cantando e batucando. Dessa forma, surgiram pérolas como:

É bom parar
De Rubens Soares e Noel Rosa
Gravado por Francisco Alves em 28 de janeiro de 1936 e lançado no mês seguinte
Disco Victor 34.038-B, matriz 80101-1
Acompanhamento do Conjunto Regional RCA Victor






Por essa época, ele já dividia suas atenções entre o samba e o boxe, tendo duas carreiras bem sucedidas. Porém, não era um meio de vida, como dizia uma reportagem da revista Carioca, de 1936. Como havia ganho muito dinheiro no ringue, somando com uma boa herança recebia, ele era um homem abastado.
Nessa mesma reportagem para a Carioca, colhida em uma roda de samba, no Trianon, lhe perguntaram quanto havia rendido seu famoso samba É bom parar. Ele respondeu:

- Até agora foram vendidos 1.400 discos do samba. Recebo 250 réis de percentagem por disco vendido. Quanto aos direitos autorais, minha comissão é de 500 réis cada vez que a composição é cantada em estúdio e 300 reis por disco irradiado.

Isso dava, no total, alguns contos de réis. Mas, ele não estava satisfeito e esperava receber mais. Parece que em 1936 o comércio de disco andava um pouco baixo. Dizia-se que o rádio competia, levando o ouvinte a deixar de ser disco-ouvinte para ser rádio-ouvinte, sendo mais barato e cômodo.
O sambista continuou sendo boxeador. Ele não pretendia abandonar as atividades esportivas. Tampouco pensa em largar o samba, que já compunha há anos, ficando suas criações restritas ao bairro em que morava. Porém, a situação era outra. Ele tornou-se conhecido e o público queria mais.




Francisco Alves era amigo inseparável e fã número um do Rubens boxeador e, em breve, também o seria do compositor. Quando lutou com o português José Carmelino, no Estádio Brasil, seguiu para o café onde encontrou Chico. O atleta ainda trazia o rosto cheio de escoriações, mas, na cabeça trazia um samba fervilhando. Cantou-o para o Rei da Voz, que ficou encantado, propondo-se a gravá-lo. No dia seguinte, os dois seguiram para a gravadora Victor, onde fecharam o negócio. Assim, surgiu É bom parar.

Na data da entrevista, nosso compositor-boxeur estava com a mão fraturada e, por ser um apaixonado pelo boxe, esperava ficar curado logo e voltar à ativa.
Ele não tinha predileção entre o samba e o boxe, pois, acreditava que um não prejudicava o outro.




Agradecimento ao Arquivo Nirez

segunda-feira, 28 de maio de 2012

A Hora do Mingau Nestlé, 1936

Revista Carioca, 1936.


Há produtos que passam décadas sem sair das prateleiras e do gosto popular. É o caso da Farinha Láctea Nestlé, criada em 1886 por Henri Nestlé.
Em 1936, a revista Carioca, trazia esse anuncio:

O futuro do seu bebê depende da alimentação na primeira infância

A "hora do mingau Nestlé" é a hora mais feliz do Carlinhos... Mãezinha não precisa forçá-lo a comer! Para a deliciosa Farinha Láctea Nestlé esse traquinas tem sempre apetite!... Como está robusto, alegre... até dá gosto vê-lo! Sim, porque a Farinha Láctea Nestlé é justamente o alimento que mais lhe convém: saborosa e altamente nutritiva, dá-lhe forças sem fatigar o seu delicado estomago e o seu paladar. Mãezinha está tão contente...






Agradecimento ao Arquivo Nirez

quinta-feira, 24 de maio de 2012

RECEITAS DA VOVÓ, parte1

Há 103 anos, minha querida avó Carmélia nascia.
Lembro que em seus aniversários e nas demais reuniões familiares sempre havia pratos, quitutes e doces inesquecíveis.
Inaugurando uma série de postagens sobre receitas que encontrei em suas coisas, trago um sorvete que marcou época e deixou saudades em várias gerações de nossa família.
A Lourdes, que trabalhou conosco por 50 anos, me passou a receita esses dias.
Eu batizei de Sorvete D. Carmélia.
Aqui vai a receita.



SORVETE D. CARMÉLIA

INGREDIENTES
2 latas de leite condensado
2 latas de leite de gado
4 gemas
4 colheres de sopa de Nescau
2 colheres de sopa de maizena
4 colheres de açúcar

MODO DE FAZER

Mistura no liquidificador:

Creme de chocolate
Leite de gado + leite condensado + gemas + Nescau + maizena.
Depois coloca em uma panela e leva ao fogo, mexendo até formar uma papa (mingau).
Quando ferver, está bom.
Coloca em um refratário e deixa esfriar.


Na batedeira:

Creme branco
Bater as claras em ponto de neve. Depois, coloca 4 colheres de açúcar e deixar em ponto de suspiro. Misturar, com uma colher, o creme de leite.
Derramar a mistura em cima do creme de chocolate.

Levar ao congelador. De preferência de um dia pro outro.






Agradecimento à Lourdes que deu continuidade, com perfeição, às receitas da vovó 
e, agora, vai nos ensinando os segredos.

quarta-feira, 23 de maio de 2012

Meus pensamentos

Essa semana ouvi, por acaso, um choro maxixe e, desde então, ele não para de ser tocado ehehe.
Tudo Preto
Da autoria de Júlio Casado e gravado pela Orquestra Pan American em 1926.
Foi parte da peça de mesmo nome, encenada nesse mesmo ano pela Companhia Negra de Revista. Nessa Companhia todos os profissionais eram negros. Pixinguinha, De Chocolat e Grande Othelo (com 11 anos) eram alguns integrantes. Fora as atrizes, Rosa Negra, Pérola Negra, Dalva Espíndola (irmã de Aracy Côrtes), Jandyra Aymoré (que viria a se casar com Pixinguinha)...
Pena que durou somente um ano, mas, marcou e fez história!

Ainda sobre a Companhia Negra de Revistas.
É triste ver como havia muito preconceito racial na MPB, o que chega a ser uma contradição, pois, muitos dos gênios de nossa música eram descendentes de escravos. Essa Companhia foi enaltecida e criticada.
Havia pessoas que diziam que em breve, as empregadas domésticas desapareceriam, pois todas queriam ser estrelas teatral. E, acreditem, teve até música que criticava as estrelas dessa Companhia...
Há várias músicas onde o preconceito é gritante, chega a impressionar como foram feitas e gravadas.

SYLVIO CALDAS, 104 ANOS



Sylvio Caldas figura entre os Quatro Grandes da Música Popular Brasileira. Os outros três eram Francisco Alves, Carlos Galhardo e Orlando Silva. Além de cantor, era compositor.

Ele nasceu no Rio de Janeiro em 23 de maio de 1908, com o nome de Sylvio Antônio Narciso de Figueiredo Caldas. Depois, já famoso, mudaria seu nome em cartório para Sylvio Caldas.

Cantando desde criança, aos cinco anos ele desfilava no carnaval, carregado nos ombros dos remadores do Clube de Regata São Cristóvão (bairro onde morava), no bloco Família Ideal
Com essa mesma idade, fez uma apresentação no Theatro Phoenix. Aos nove anos, era aprendiz em uma oficina mecânica.

Começou a cantar profissionalmente em 1927, quando o cantor Milonguita (Antônio Gomes) o levou para a rádio Mayrink Veiga; local em que conheceu e fez amizade com o pianista Bequinho e os compositores Uriel Lourival e Cândido das Neves.

Em 1929, já cantava na Rádio Sociedade.

Em 28 de janeiro de 1930, gravou sua primeira música. Cantando com Breno Ferreira, os dois gravaram o desafio Tracuá me ferrô, na Victor.
Em 19 de fevereiro desse mesmo ano, ele gravou sua primeira música cantando sozinho: Amoroso, samba de, no dia 19 de fevereiro de 1930.

Mesmo gravando na Victor, em agosto de 1930 a Brunswick lançou vários discos seus. O primeiro trazia duas composições de Sinhô, que faleceria no dia 04 desse mesmo mês e ano: Recordar é Viver, canção, e Amor de Poeta, samba canção.

Também atuou no teatro de revista, tendo contracenado com Aracy Côrtes.
Era uma das estrelas do Programa Casé.
Em 1937 participou do filme de Luís de Barros, Carioca Maravilhosa.

 Sylvio era irmão da cantora Glorinha Caldas, falecida prematuramente em 1937, com 27 anos.
Também era irmão do cantor Murilo Caldas.

Era conhecido por Caboclinho Querido.

Seu repertório era dos melhores, gravando canções, sambas, marchas, sucessos de carnaval, fazendo duetos com Carmen Miranda, Luís Barbosa ou Francisco Alves, Sylvio Caldas teve uma longa carreira, sendo admirado e influenciando várias gerações.

Ele faleceu em 03 de fevereiro de 1998, em Atibaia, SP,  (onde morou suas últimas décadas), pouco antes de completar 90 anos.

Mesmo idoso, fazia shows. Sempre apresentava uma temporada de despedida, mas, felizmente voltava com outras temporadas, em despedidas que duravam anos e muitas boas apresentações.

Em 1991 perdi a oportunidade de vê-lo, aos 83 anos, cantando e dançando no Theatro José de Alencar. Mas, eu estava com sarampo... impossível poder comparecer.






Agradecimento à Thais Matarazzo e ao Arquivo Nirez

sexta-feira, 18 de maio de 2012

VASSOURINHA, 89 anos

Vassourinha aos 12 anos, capa da revista Carioca, 1935.


Há 89 anos nascia, em São Paulo, Mário Ramos, o cantora Vassourinha, 16 de maio de 1923.
Em 1934, o menino Mário Ramos, de apenas 11 anos, começou a soltar sua voz. Mas, somente no ano seguinte ele teria sua carreira impulsionada através do filme Fazendo Fita.
A jornalista e pesquisadora musical Thais Matarazzo nos conta que ele trabalhava como contínuo da Rádio Record, em São Paulo. Morava no bairro da Barra Funda em uma pensão, onde sua mãe trabalhava como faxineira e cozinheira.
Aos poucos, passou a ser conhecido no meio musical e tornou-se célebre, devido ao seu precoce talento e boa voz.
Vieram as gravações, programas de rádio, shows... Com o pseudônimo de Vassourinha, que lembrava sua humilde origem, ele já fazia parte dos maiores nomes de nossa música, se apresentando no Rio de Janeiro e em São Paulo.

Em São Paulo, acompanhado do regional de Armandinho, 1938.

Toda essa bem sucedida carreira seria interrompida em 03 de agosto de 1942. Ele tinha apenas 19 anos e faleceu vitima de tuberculose. Também tinha uma doença nos ossos, porém, não sei dizer se isso contribuiu para sua morte.
O pouco que ele deixou gravado nos dá a ideia de quanto ele era bom sambista e ainda poderia contribuir bastante com nossa música.
Vamos conferir algumas gravações do célebre Vassourinha.


Encontro de ases do broadcasting, 1938.
Da esquerda para a direita: Vassourinha, Aurora Miranda, 
Almirante, Carmen Miranda e Sylvio Caldas.
Não identifiquei o último homem.



Seu Libório
Choro de João de Barro (Braguinha) e Alberto Ribeiro
Disco Columbia 55.295-A, matriz 441-2
Acompanhamento do Conjunto Regional de Benedito Lacerda
Gravado em 23 de junho de 1941 e lançado em agosto.
Foi cantado no filme Alô, alô Carnaval (Cinédia, 1936), pelo cantor Luís Barbosa,
em ritmo de samba, batucando em seu chapéu de palha, em uma cena antológica.



Juracy
Choro de Antonio Almeida e Ciro de Sousa
Disco Columbia 55.295-B, matriz 442-1
Acompanhamento do Conjunto Regional de Benedito Lacerda
Gravado em 23 de junho de 1941 e lançado em agosto.



Emília
Clássico samba de Haroldo Lobo e Wilson Batista
Disco Columbia 55.302-A, matriz 443-2
Acompanhamento do Conjunto Regional de Benedito Lacerda
Gravado em 1941 e lançado em outubro.



Ela vai à feira
Samba de Roberto Roberti e Almanir Grego
Disco Columbia 55.302-B, matriz 444-1
Acompanhamento do Conjunto Regional de Benedito Lacerda
Gravado em 1941 e lançado em outubro.



Amanhã tem baile
Samba de Haroldo Lobo e Milton de Oliveira
Disco Columbia 55.346-A, matriz 517-1
Acompanhamento do Conjunto Regional de Benedito Lacerda
Gravado em 12 de maio de 1942 e lançado em junho.



Volta pra casa, Emília
Samba de Antônio Almeida e J. Batista
Disco Columbia 55.346-B, matriz 514-1
Acompanhamento do Conjunto Regional de Benedito Lacerda
Gravado em 12 de maio de 1942 e lançado em junho.









Agradecimento à Thais Matarazzo e ao Arquivo Nirez







quarta-feira, 16 de maio de 2012

A ARTE DEFENDENDO A NATUREZA

Ao cair da tarde do dia 06 de maio de 2012, um bonito domingo, à bela paisagem da Beira Mar de Fortaleza uniram-se vários cidadãos conscientes e preocupados. Estavam ali para protestarem contra o novo Código Florestal. Mas, não era uma manifestação comum. Quem passava pelo grupo via crianças desenhando, pais e mães elaborando cartazes, intervenções teatrais, boa música... Enfim, um evento cultural visando chamar a atenção das pessoas aos prejuízos que a mudança pode causar em nossa natureza.

Quem fazia sua caminhada parava alguns instantes ou diminuía o passo para conferir os cartazes e conversar com os organizadores. Todos gostaram do evento que teve o clímax em uma grande ciranda, formada por todos que lá estavam e os que iam se chegando. 


Beira Mar, Fortaleza, 06 de maio de 2012. Foto de Gustavo Portela

Beira Mar, Fortaleza, 06 de maio de 2012. Foto de Gustavo Portela

Uma nova manifestação está programada para o próximo dia 20 de maio, domingo. Nesse novo encontro, haverá ainda mais cultura, com show da cantora e atriz Andréa Piol, do músico Gustavo Portela, fora outros atrativos ligados à arte e em conscientização ao destino de nossa natureza.

Convite ao próximo encontro.

Vamos conferir uma entrevista com a atriz Tatiana Conde e um vídeo feito com os artistas. Foi Tatiana quem primeiro teve a idéia de fazer um protesto aliado à cultura aqui em Fortaleza. Fazendo contatos com demais pessoas interessadas no assunto, ela vem conseguindo ampliar a exposição de idéias em favor da proteção ambiental.

Os atores Jadeilson Feitosa, Tatiana Conde e César Borges.
Foto de Gustavo Portela.

Como surgiu a idéia de fazer uma manifestação alertando as pessoas sobre as mudanças do novo Código Florestal? 

A ideia da manifestação nasceu de conversa entre amigos.No Facebook, pude perceber quanta gente estava insatisfeita com esse novo Código Florestal. Daí pensei: por que não vamos pra rua? Mostrar nossa indignação?A Flor, uma amiga daqui comprou a ideia na hora e começamos a organizar.Tudo muito simples, pois não pertencemos a nenhum partido ou organização. Foi tudo no boca a boca mesmo. As pessoas foram surgindo e fizemos uma manifstação linda.

Você teve a ideia pioneira aqui em Fortaleza. Como vê o sucesso da divulgação, as pessoas aderindo ao evento? 

Muita gente tem se posicionado contra o novo Código Florestal.O que fizemos foi só reunir as pessoas. Acho que se tivermos mais espaço pra divulgação, vai haver muito mais adesão. O assunto é sério, diz respeito a todos nós. Espero que essa segunda manifestação tenha uma resposta ainda melhor.


A manifestação do dia 06 foi um encontro onde a conscientização estava de mãos dadas com a cultura. No próximo dia 20 essa união estará maior. Você acha que essa é uma forma mais eficaz de chamar a atenção das pessoas?

Sempre acho que a cultura está intimamente ligada á educação. 
Elas andam de mãos dadas. 
Uma manifestação se torna mais rica com a presença de artistas. 
Vamos ter música, artes plásticas, moda, teatro...tudo isso unido à informação. Quem não sabe ainda sobre o assunto vai poder ler nos cartazes o que esse novo código significa. Enfim, tentamos unir forças e fazer uma manifestação pacífica, porém forte. 


Quais as chances da Presidente Dilma Rousseff vetar o novo Código Florestal?

Sou otimista...rsrsrs...acho que as chances são grandes. Existe muita pressão pra Dilma vetar.
E não só dentro do Brasil. Hoje o mundo está todo ligado, de olho nas decisões que se tomam. 
O mundo precisa desse veto.


De que forma as pessoas tem encarado a manifestação?

As pessoas tem encarado de uma forma positiva. Sinto que ainda existe muita falta de informação, e em alguns casos, até indiferença sobre o assunto. Acho que tem gente que ainda não percebeu que essa decisão afeta cada um de nós,sem exceção.




domingo, 13 de maio de 2012

AMOR DE MÃE

Elisinha Coelho, cantora, e seu filho Luis Felipe,
o conhecido jornalista Goulart de Andrade, 1936.

13 de maio de 2012 cai em um domingo, Dia das Mães.
A data nos faz rememorar alguns acontecimentos. Fora o dia de nossas querida Mães que, acho que deva ser todos os dias, mas, representado nessa data, foi em um 13 de maio, em 1917, que Maria apareceu a três pastores em Portugal. Esse acontecimento é sempre relembrado pelos católicos e, independente de qual religião seja seguida ou não, é algo que já faz parte da cultura universal, há 95 anos.
Outro acontecimento, ocorrido em 1888, foi a abolição da escravatura no Brasil, através da Lei Áurea, assinada pela Princesa Regente Isabel do Brasil. A data também caiu em um domingo.

Vamos relembrar algumas mães e seus filhos, todos ligados às artes.


Francesca Moziéres, cantora,
com seu filho Armando Pedro, 1927.


A bailarina espanhola Aída Izquierdo com sua filha, Abigail,
a futura atriz e cantora Bibi Ferreira.
Com elas, o pai Procópio Ferreira, ator, 1930.


Olga Louro, atriz, com seu galantes filhinhos, 1930.
Olga era filha da atriz Estefânia Louro
e irmã da atriz Margot Louro.


Elisinha Coelho, cantora, e seu filho Luis Felipe, 
o conhecido jornalista Goulart de Andrade, 1936.


Margot Louro, atriz, com Miriam Tereza,
que também seria atriz e dubladora, 1936.
Margot era casada com o ator Oscarito.


Margot e Miriam, 1938.


D. Maria Emília e sua filha Maria do Carmo,
a cantora Carmen Miranda, 1932.


D. Maria Emília e Carmen Miranda, 1940.


O locutor César Ladeira e sua mãe.


O compositor Custódio Mesquita e sua mãe, D. Camila,
que ele dizia ser sua "eterna namoradinha", anos 30.


Sônia Barreto, cantora, locutora e escritora,
com seu filho Sérgio Eduardo, 1950.


Sônia Barreto e sua filha, Wânia, 1955.


D. Nenem e sua filha Dirce, a cantora Dircinha Batista, 1954.


D. Nenem com sua filha Florinda,
a cantora Linda Batista, 1954.


A atriz Lódia Silva e seu filho, o ator Jardel Filho, 1952.


A atriz Lódia Silva e seu filho, o ator Jardel Filho, 1952.


Aurora Miranda e seus filhos
Gabriel e Maria Paula, anos 50.

Dalva de Oliveira com seus filhos, Ubiratan e Pery,
e o esposo, o compositor Herivelto Martins, anos 40.


Emilinha Borba e seu filho, Artur Emílio, 1956.


Francisco Alves, o Rei da Voz, e sua irmã Ângela, que o criou, 1952.






Agradecimentos à Thais Matarazzo e ao Arquivo Nirez

sexta-feira, 11 de maio de 2012

SÔNIA CARVALHO, 24 anos de saudade



Há 24 anos perdíamos uma das mais talentosas e queridas cantoras brasileiras, Sônia Carvalho.
Sua carreira iniciou na primeira metade da década de 1930, onde se apresentava acompanhando,  ao piano ou violão, sua irmã, que cantava. Quando começou a cantar foi logo notada pelas rádios de São Paulo, onde nasceu. Seu cunhado, o locutor Celso Guimarães, a aconselhou ir ao Rio de Janeiro. Ela foi e passou a ser requisitada pelas emissoras cariocas. Já em 1934, o compositor André Filho foi o autor das duas músicas de seu primeiro disco. Ela alternava apresentações em São Paulo e Rio de Janeiro. Em 1936, foi uma das cantoras convidadas a inaugurar a Rádio nacional do Rio de Janeiro, vindo de São Paulo especialmente para a ocasião.
No início de sua carreira, Sônia tinha muita influência do estilo de Carmen Miranda, de quem era fã. Com o passar do tempo adquiriu um estilo próprio, mas, sempre que queria, mesmo quando já era uma senhora, com filhos crescidos, ela imitava com perfeição a Pequena Notável.
Sônia Carvalho fez parte das grandes cantoras dos anos 30. Na década de 1970, ela concedeu uma entrevista ao pesquisador Nirez, onde falava de sua vida, carreira e colegas. Nessa ocasião, contou que em algumas de suas gravações, estavam no coro Aracy de Almeida, Orlando Silva e Francisco Alves, que estavam também no estúdio gravando músicas e tomavam parte no coro uns dos outros por pura amizade. Aliá, uma das músicas preferidas de Francisco Alves era do repertório dela. Sempre que ele via Sônia, dizia: Olha aí a garota que gravou A infelicidade me persegue!
Sua popularidade a levou ser eleita duas vezes Rainha do Rádio Paulistano.
Também apresentou programas infantis de calouros, onde descobriu a cantora Marion.
Ela abandonou sua carreira por ter-se casado, como ela mesmo afirmava. Dedicou-se a sua família, mas, sempre estava ligada à música, no que era acompanhada por seu filho Roberto.
Vamos conferir algumas de suas músicas. Do lirismo romântico e inocente de Beijos ao nostálgico e sentimental Eu vivia no morro, um pouco da versatilidade de Sônia Carvalho.




Beijos
Primeira gravação de Sônia Carvalho
Marcha de André Filho
Disco Odeon 11.176-A, matriz 4918
Gravado em 21 de setembro de 1934, lançado em dezembro desse mesmo ano.



Beijos, sensuais e tentadores
Sonho azul dos namorados
que vivem de amores
(repetindo a melodia desses beijos)

Se dar beijos e pecado
eu já pequei
Pois beijei o meu amor
Numa noite de luar
enquanto a lua enchia a terra de esplendor

Nos lábios do meu amor,
perdão Senhor,
muitos beijos dei também.
E pra não perder o gosto
desses beijos
nunca mais beijei ninguém.


A infelicidade me persegue
Samba de Assis Valente
Disco Victor 34.014-A, matriz 80032-1
Acompanhamento do Conjunto Regional RCA Victor
Gravado em 06 de dezembro de 1935, lançado em janeiro de 1936.




A infelicidade me persegue
sou infeliz, eu bem sei
Toda a amizade que eu tinha
foi-se embora
Abandonada fiquei

Morreu a minha esperança
Morreu o meu amor
Fiquei com a desventura
chorando a minha dor

Fiquei com a desventura
Fiquei sem meu amor
Fiquei com a desventura
do meu primeiro amor


Você quer se ver livre desse mundo
Samba de Assis Valente e Roberto Azevedo
Disco Victor 34.055-A, matriz 80075-1
Acompanhamento do Conjunto Regional RCA Victor
Gravado em 06 de dezembro de 1935, lançado em maio de 1936.



Você quer se ver livre desse mundo
Veneno você quer tomar
(Ora, meu bem)
Mas esse seu pensamento
é coisa de momento
Se ainda não mudou
vai mudar

Se o seu mal é de amor
Procure se esquecer
Faça o possível, seja como for
Nos um dia temos de morrer
Pra quê?

Isso tem de se acabar
Pois tudo que começa
algum dia tem de terminar
Há tanta alegria no viver
Pra quê?


Eu vivia no morro
Samba de Assis Valente
Disco Victor 34.055-B, matriz 80076-1
Acompanhamento do Conjunto Regional RCA Victor
Gravado em 06 de dezembro de 1935, lançado em maio de 1936.



Eu vivia no morro
cantando e sambando
Ao som do lamento
do meu violão
Mas, um dia,´(não sei pra quê)
vim pra cidade
Hoje vivo chorando
em vão
a minha saudade

Porque um dia, indiferente
abandonei a minha gente
Eu não sabia que na cidade
só tem mentira e falsidade

Hoje, eu ando martirizada, abandonada
Meu Deus, sem ter ninguém
Meu coração vive a penar
Ai, quem me dera poder voltar


Metamorfose
Batuque de Hudson Gaia, o Petit
Dico Victor 34.073-B, matriz 80074-1
Acompanhamento do Conjunto Regional RCA Victor
Gravado em 06 de dezembro de 1935, lançado em julho de 1936.



Eu vou na frente
vou batendo o tamborim
Vocês vem atras
mas fazendo o coro pra mim

Não faz mal que todos falem
que eu não sei bater pandeiro
O que eu não quero é que acabem
com o samba brasileiro
Vai tomando, as coisas, jeito
em geral e pequenina
Pois a valsa, hoje,
é um perfeito foxtrot fantasia

A mazurca, hoje é rancheira
O maxixe virou rumba
Parece até brincadeira
São coisas da macumba
Mesmo a xótis foi esquecida
Dando ao tango o seu lugar
Era a dança preferida
Hoje, ninguém quer dançar

Até a valsa comportada
sumiu como tudo some
Qualquer dia, disfarçada
aparece com outro nome
Vou fazer uma macumba
e acender uma vela
Pra evitar que nosso samba
inda vire em tarantela


Deve ser o meu amor
Batucada de Ary Barroso
Disco Victor 34.022-B, matriz 80072-1
Acompanhamento dos Diabos do Céu, sob a direção de Pixinguinha
Gravado em 06 de janeiro de 1936 e lançado nesse mesmo ano.



Ouço a batida de um tambor
E o compasso de um pandeiro
Deve ser o meu amor
Batucando no terreiro
(oi, batucando no terreiro)

Meu amor quando samba
ninguém dá opinião
Tem diploma de bamba
poe os pés no coração
(meu Deus do céu)
Ele é meu, de mais ninguém
e eu dele também
E assim o nosso amor
não tem fim.









Agradecimento ao Arquivo Nirez






quinta-feira, 10 de maio de 2012

EURÍSTENES PIRES, 107 anos



Eurístenes Pires nasceu em Barbacena, Minas Gerais, em 10 de maio de 1905.
Seu pai era um famoso médico de Minas, Dr. João Alves de Almeida Pires.
Em 1919, começou sua carreira artística.
Já em 1928, gravou seu primeiro disco na Parlophon, com as canções Lábios formosos e O olhar da brasileira, ambas de Pedro de Sá Pereira.
Em 1929, foi para a gravadora Columbia, onde lançou três discos.
Já em 1956, gravou um disco na Continental com as músicas, Oh mar e Amor ao luar, ambas de sua autoria.

Ele fez parte dos cantores dos anos 20 que, vindo de família abastada, abraçaram a música popular. Em setembro de 1930, participou de um recitar no Theatro Lyrico do Rio de Janeiro, organizado pelo maestro e compositor Henrique Vogeler, então diretor artístico da gravadora Brunswick, e que foi dedicado à Rádio Brunswick Brasil e as demais sociedades irradiadoras.
Tomaram parte os seguintes artistas: Oscar Gonçalves, Christina Costa (Maristany), Berenice Antunes Piergili, Anna de Albuquerque Mello, gastão Formenti, Edmundo André, Yolanda Osório e Ivetta Ribeiro.
Eurístenes cantou, Só farta você querê e Minha vida.


Algumas músicas de Eurístenes Pires.


Sonhando Amor
Tango de Zequinha de Abreu
Acompanhamento de Hotel Itajubá Orquestra
Disco Parlophon 12.857-A, matriz 1956
Lançado em novembro de 1928




Patrícia
Valsa de Roque Vieira
Acompanhamento do Hotel Itajubá Orquestra
Disco Parlophon 12.857-B, matriz 1957
Lançado em novembro de 1928




Lamentos de Minh´alma
Canção de Carlinhos de Almeida
Acompanhamento do Trio Ghiraldini
Disco Columbia 5.046-B, matriz 380154
Lançado em julho de 1929.




Afrodita
Canção de J. Moreira de Aguiar
Disco Columbia 5.073-B, matriz 380153
Lançado em setembro de 1929




O Querido das Mulheres
Foxtrot canção de Jota Machado
Acompanhamento de Gaó, Jonas, Petit e Zezinho
Disco Columbia 5.119-B, matriz 380407-2
Lançado em dezembro de 1929




Só Farta é Você Querê
Samba canção de Xerém e Gilberto Andrade
Disco Columbia 5.126-B, matriz 380405
Lançado em dezembro de 1929




O Xodó da Morena
Samba canção de Carlos Rodrigues
Acompanhamento de Gaó, Jonas, Petit e Zezinho
Disco Columbia 5.125-B, matriz 380403
Lançado em 1929




Porque Fingiste Não Me Ver
Valsa de José Francisco de Freitas
Acompanhamento de Ghiraldini e sua Orquestra Hotel Esplanada
Disco Columbia 5.125-B, matriz 380409
Lançado em 1929














Agradecimento ao Arquivo Nirez






segunda-feira, 7 de maio de 2012

CARNAUBEIRAS DA CEARÁ, 1938



Em 30 de abril de 1938, o jornalista Raimundo de Menezes escreveu uma crônica para a seção Coisas e Aspectos do Brasil, especialmente para na revista Carioca. Ele enfocava as carnaubeiras do Ceará. As fotos foram feitas por M. Guilherme.
Eis o artigo na íntegra.


COISAS E ASPECTOS DO BRASIL
Carnaubeiras do Ceará – A planta maravilhosa que Humboldt chamou de “árvore da vida”

A carnaúba é a árvore milagrosa do sertão cearense. Muito embora seja vista abundantemente em todo o nordeste brasileiro – do rio São Francisco ao Parnaíba – é, porém, em terras do Ceará, que vamos encontrá-la mais profusamente, às margens do Jaguaribe e do Acaraú.
A “corypha cerifera” (é este o seu nome cientifico) constitui uma das árvores mais úteis, senão a mais útil, da qual o sertanejo tudo aproveita, afirma-nos o cientista Tomás Pompeu.
Palmeira, cujo crescimento é deveras moroso, chega a ter oito a dez metros de altura, somente aos cinqüenta anos de idade.
Prolifera espantosamente, com uma fecundidade que parece um milagre do céu, na terra comburida.

Legenda1: Quando a seca vier, o chão será nu e duro sob o céu coruscante
e só a carnaubeira há de  permanecer verde e moça no ar parado.
Legenda 2: À margem das estradas e à beira dos rios elas se perfilam,
espalhadas pelo sertão do nordeste.


Sua resistência é tão notável, que, às vezes, após as queimadas dos roçados, quando atingida pelo fogo, surge impavidamente, em meio ao braseiro, apenas despida das suas palmas, tronco nu, porém capaz de rejuvenescer à carícia orvalhante das primeiras chuvas.
Não há casa no Ceará que não possua na construção, travessas, ripas e caibros, nos seus tetos, que não tenham sido feitos de troncos de carnaúbas.

A palhoça do sertanejo é levantada totalmente graças à árvore milagrosa: desde a cobertura, entrançada, de maneira magistral, com a palha, capaz de abrigar do maior pé d´água, até às paredes também resistentes, trabalhadas com palmas e troncos.
Para demonstrar a resistência férrea da carnaúba, é ainda Tomás Pompeu quem nos vai contar um exemplo digno de nota: “No lugar Fortinho, à margem do Jaguaribe, onde as marés penetram, há uma ponte assente sobre carnaúbas, construída em 1872, em perfeito estado de conservação”.



Nas secas longas que afligem, quando em vez, as populações rurais, a carnaúba é uma das únicas árvores que atravessam a calamidade vitoriosamente, servindo de alimentação às classes desprotegidas, que dos seus palmitos extraem vinho, vinagre e uma substância sacarina. Quase sempre, também serve de forragem ao gado faminto.
Sua tenaz resistência às secas já foi cantada em belos versos por poetas cearenses:

“Aberta ao sol a fronde rumorosa,
À seca que devasta o vale e a serra,
Sobrevives robusta e vigorosa.
Vendo-te, vê quem pelos campos erra
Que és o símbolo da alma valorosa
Do grande povo audaz da minha terra!”.

Do seu fruto, nas épocas normais de abundância, se faz uma farinha, usada geralmente, como condimento na arte culinária.
O seu tronco tem serventia, no sertão, para o conduto d´água, quando perfurado, substituindo, galhardamente, qualquer cano de ferro.
Suas raízes de pouca profundidade são utilizadas, com êxito, no tratamento das moléstias de origem sifilítica, como os preparados de salsaparrilha.
Das suas palmas, que se abrem ao vento, com um musicar estranho, enfeitando, numa festa constante, os céus descampados, o sertanejo inteligente arranca uma indústria proveitosa: fabrica primorosamente chapéus, que são uma maravilha de arte, urus, esteiras, colmo para casas,cordas, enchimentos de cangalhas...



A cera – o produto mais rico da carnaúba – é tirado das suas folhas. Aberta ao sol, cerca de quatro dias, as palmas, quando sacudidas, deixam cair um pó cinzento e, às vezes, esbranquiçado, que levado ao fogo, se derrete, e se coagula ao esfriar. Misturada ao sebo animal, serve para o fabrico de excelentes velas para iluminação, profusamente utilizadas pelas populações sertanejas.
A cera ainda é exportada, em grande escala, para a Europa e para os Estados Unidos, constituindo uma das principais fontes de riqueza do Estado do Ceará.
Os industriais estrangeiros aproveitam-na vantajosamente, entre outras, para a fabricação de discos fonográficos, em cuja confecção entra como matéria prima essencial de primeira qualidade.

Da árvore milagrosa tudo se aproveita e nada se perde: ainda dos talos das folhas se fazem colchões e camas, portas e janelas, à guisa de venezianas.
A palha produz ainda um sal álcali, empregado no fabrico do sabão.

Como se depreende, enfim, desta leve sumula, a carnaúba, no Ceará e no nordeste brasileiro, é a árvore prodigiosa que serve para tudo, sendo a sua utilidade simplesmente assombrosa, como fonte de riqueza ainda não racionalmente explorada.

(Revista Carioca, 30 de abril de 1938).


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Como vimos, a Carnaúba tem inúmeras utilidades, conhecidas há séculos.
O geógrafo e cientista alemão Alexander von Humboldt a chamava de árvore da vida. 

Alexander von Humboldt (1769-1859)

É interessante as várias formas em que a palmeira é aproveitada, inclusive na fabricação dos famosos discos de cera, que sempre ouvimos aqui no blog.
Desde o início da indústria fonográfica, foram usados alguns materiais para se obter um disco resistente e livre de ruídos. Justamente a cera de carnaúba foi um dos melhores encontrados.


O cientista Tomás Pompeu, citado na reportagem, me parece ser Tomás Pompeu Lopes Ferreira. Além de cientista, ele era poeta, contista, cronista e romancista, tendo escrito os versos do Hino do ceará, cuja melodia ficou a cargo do maestro cearense Alberto Nepomuceno. Tomás Pompeu nasceu em Fortaleza, em 16 de novembro de 1879 e faleceu na Suíça, em 15 de julho de 1913. 


Não consegui identificar o autor dos versos citados. Quem sabe não seriam de nosso cientista/poeta Tomás Pompeu...

Abaixo fiz um pequeno glossário de palavras contidas no texto. Algumas, não são usadas há décadas e outras, são típicos objetos do nordeste, talvez, desconhecidos em outras regiões.

Vamos a elas:

Comburida – Queimada.
Urú - Cesto feito com folhas de carnaúba, dotado de alças. 
Colmo – Tipo de caule.
Cangalha - Artefato feito de madeira ou ferro, normalmente acolchoado, que se coloca no lombo de cavalos, jumentos, burros... para pendurar carga. 
À guisa de – À maneira de.







sábado, 5 de maio de 2012

Dalva de Oliveira, 95 anos

Para o album do Radio-Fan - Dalva de Oliveira
Dalva de Oliveira é uma figura de relevo no "Trio de Ouro", como agora é chamada a "Dupla Preto e Branco". 
Começou cantando no radio, sózinha. Por esse tempo já existia a "Dupla Preto e Branco".
Juntou-se a ela. Esposou Herivelto Martins, o "branco" da dupla e acompanhou-o recentemente a uma viagem a Porto Alegre, onde voltou com maior gloria para a sua carreira. Dalva de Oliveira atúa, ainda como figura integrante do "Trio de Ouro" - "Dupla Preto e Branco" - na PRG-3, Radio Tupí.
(Revista Carioca, 19-03-1938, nº 126.
Obs: Copiei a nota na íntegra, com acentuação, pontuação e grafia originais).


Há 95 anos nascia Dalva de Oliveira, nossa Rainha da Voz e amiga querida, 
uma vez que, para a própria Dalva, ela não tinha fãs, e sim, amigos.



Selecionei dez músicas com Dalva cantando sozinha ou com o Trio de Ouro.

Alvorada
Trio de Ouro
Samba rumba de Príncipe Pretinho e E. J. Moreira
Disco Columbia 55.066-B, matriz 150-2
Gravado em 10 de maio de 1939, lançado em junho de 1939




Mesma História
Dalva de Oliveira
Marcha de Benedito Lacerda e Herivelto Martins
Acompanhamento de Benedito Lacerda e seu Conjunto Regional
Disco Columbia 55.218-A, matriz 285
Gravado em 24 de maio de 1940, lançado em junho de 1940




Menina de vestido branco
Dalva de Oliveira
Mazurca de Príncipe Pretinho
Acompanhamento de Benedito Lacerda e seu Conjunto Regional
Disco Columbia 55.218-B, matriz 286
Gravado em 24 de maio de 1940, lançado em junho de 1940








Acorda João
Trio de Ouro
Cena Típica de Humberto Porto
Acompanhamento de Benedito Lacerda e seu Conjunto
Disco Columbia 55.219-B, matriz 283-1
Gravado em 24 de maio de 1940, lançado em junho de 1940




Caçador de Esmeraldas
Dalva de Oliveira
Marcha de Rancho de Osvaldo Santiago e Humberto Porto
Acompanhamento de Fon Fon e sua Orquestra
Disco Columbia 55.252-A, matriz 345-2
Gravado em 11 de novembro de 1940, lançado em dezembro de 1940




Sorri
Trio de Ouro
Samba de Príncipe Pretinho e Lauro dos Santos “Gradim”
Acompanhamento do Grande Conjunto de Benedito Lacerda
Disco Columbia 55.252-B, matriz 343-1
Gravado em 11 de novembro de 1940, lançado em dezembro de 1940







Lamento Negro
Trio de Ouro
Batuque de Constantino Silva “Secundino” e Humberto Porto
Acompanhamento do Grande Conjunto de Benedito Lacerda
Disco Columbia 55.270-B, matriz 385-1
Gravado em 1941, lançado e maio de 1941




Lá em Mangueira
Trio de Ouro
Samba de Heitor dos Prazeres e Herivelto Martins
Acompanhamento de Benedito Lacerda e seu Conjunto
Disco Odeon 12.242-A, matriz 7095
Gravado em 15 de outubro de 1942, lançado em janeiro de 1943




Babalu
Dalva de Oliveira
Samba de Margarita Lecuona, versão de Humberto Porto
Acompanhamento de Radamés Gnatali e sua Orquestra
Disco Odeon 12.379-A, matriz 7396
Gravado em 07 de outubro de 1943, lançado em novembro de 1943




Sina Triste
Dalva de Oliveira
Lamento de Humberto Porto e Áureo Alves Pineschi
Acompanhamento de Radamés Gnatali e sua Orquestra
Disco odeon 12.379-B, matriz 7397
Gravado em 07 de outubro de 1943, lançado em novembro de 1943








Agradecimento ao Arquivo Nirez






sexta-feira, 4 de maio de 2012

Amado Regis, 102 anos

O compositor Amado Regis nasceu em 04 de maio de 1910 em São Paulo (Casa Branca).
Faleceu no Rio de Janeiro em 12 de dezembro de 1976.
Suas primeiras composições foram gravadas por Carmen Miranda na Odeon, o samba Paga quem deve e a marcha Meu balão subiu... subiu...
Carmen ainda lançaria o samba-tango O samba e o tango, e o samba Reminiscência triste.
Outros grandes nomes também gravaram suas músicas: J. B. de Carvalho, Odete Amaral, Aracy de Almeida, Elvira Pagã.



Meu balão subiu... subiu...
Carmen Miranda
Marcha em parceria com Marcílio Vieira
Acompanhamento da Orquestra Odeon sob a direção de Simon Bountman
Disco Odeon 11.361-A, matriz 5346
Gravado em 13 de maio de 1936, lançado em junho de 1936.




Paga quem deve
Carmen Miranda
Samba em parceria com Marcílio Vieira
Acompanhamento do Grupo da Odeon
Disco Odeon 11.361-B, matriz 5347
Gravado em 13 de maio de 1936, lançado em junho de 1936.




O Samba e o Tango
Carmen Miranda
Samba-tango
Disco Odeon 11.462-A, matriz 5522
Acompanhamento do Grupo da Odeon
Gravado em 24 de fevereiro de 1937, lançado em abril de 1937




Reminiscência triste
Carmen Miranda
Samba romântico
Disco Odeon 11.462-B, matriz 5521
Acompanhamento do Grupo da Odeon
Gravado em 24 de fevereiro de 1937, lançado em abril de 1937




Alma de um povo
Odete Amaral
Samba em parceria com Synval Silva
Disco Victor 34.358-A, matriz 80838-1
Acompanhamento da Orquestra Carioca Swingtette, direção de Radamés
Gravado em 13 de julho de 1938, lançado em setembro de 1938




Lenda da rosa vermelha
J. B. de Carvalho
Marcha rancho
Disco Odeon 11.995-A, matriz 6418
Acompanhamento do Conjunto Odeon
Gravado em 27 de junho de 1940, lançado em junho de 1941




Micróbio do Samba
Odete Amaral
Samba
Disco Odeon 12.168-B, matriz 6975
Acompanhamento de Fon Fon e sua Orquestra
Gravado em 22 de maio de 1942, lançado em julho de 1942










Agradecimento ao Arquivo Nirez






NOEL ROSA, 75 anos de saudade


Há 75 anos perdíamos um dos mais geniais compositores brasileiros, Noel Rosa.

Duas músicas de sua autoria gravadas no início de sua carreira:

Festa no Céu
Toada gravada por ele mesmo
Disco Parlophon 13.185-A, matriz 3654
Acompanhado de Grupo Regional
Gravado em 1930 e lançado em agosto desse ano




Minha Viola
Embolada gravada por ele mesmo
Disco Parlophon 13.185-B, matriz 3320
Acompanhado de Regional
Gravado em 1930 e lançado em agosto desse ano












Agradecimento ao Arquivo Nirez






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