sexta-feira, 19 de abril de 2013

FORTALEZA em 1937, por Lima Figueiredo

Na edição de 10 de abril de 1937, a revista CARIOCA publicava uma matéria especial na seção Coisas e Aspectos do Brasil, assinada por Lima Figueiredo, enfocando o Estado do Ceará, com o título CEARÁ - TERRA DA LUZ.

Figueiredo começava afirmando que todos os brasileiros admiravam com carinho especial os cearenses e que o Ceará era amado e querido em todos os recantos do país.
Ele descrevia o Estado como: “Um foco de luz colocado na quina nordeste do nosso território esparge raios belíssimos que engolfam de simpatia os habitantes do país inteiro”.
Como sabemos, e como ele mesmo afirmava, o foco era (e é) o sol “imenso que abrasa, ilumina e esturrica tudo”.

O sertanejo era louvado por sua bravura “super-maravilhosa”, enfrentando as agruras da seca. Os jangadeiros eram tidos como possuidores de uma coragem miraculosa para enfrentar nossos “verdes mares bravios”.
Essa bravura e coragem existem até hoje.

O nosso amor “arraigado” pela terra, que nos faz voltar ao chão castigado pelo sol tão logo sabemos notícias de chuvas copiosas, já era notado pelo jornalista.
José Francisco Nascimento (Dragão do Mar) era lembrado em suas ações e seu grito: “Neste porto não embarcam mais escravos”.  Figueiredo ainda nos diz que Nascimento foi ao mercado e soltou todos os animais e pássaros, afirmando com firmeza que “no Ceará não há mais escravos”.

Nossas costas desprovidas de baías e enseadas eram vistas, pelo autor, como uma “ourela branca e arenosa” cujo mar revolto ia, a cada dia, “dela fugindo como amante zangado”.
Esse “amante zangado” também esbordoava as alvas praias, onde antes haviam “cajueiros copados e esbeltos coqueiros”, que emprestaram e emprestam tanta poesia às nossas plagas nordestinas. Por conta disso, Figueiredo apontava um antigo problema: a falta de um porto que seria fundamental ao progresso.

Sobre a capital, Fortaleza, ela a via como uma cidade moderna, “onde há o mais exigente conforto e a mais severa higiene”. Na Praça do Ferreira já podiam ser vistos imponentes e “ulta-moderníssimos” arranha-céus.
O cearense, para ele, era tão blaguer quanto ou carioca; ou seja, muito piadista.
Aliás, “a piada repentina que desconcerta e, pelo imprevisto, provoca o riso é o forte daquela gente inteligente, vivaz e sadia”.

Eis um exemplo do humor cearense em 1937.
Lima Figueiredo passou pela Inspetoria Federal de Obras (IFOCS) e quis saber o significado das iniciais. Enquanto perguntava a uns transeuntes, aproximou-se um rapaz e o diálogo foi o seguinte:
Rapaz – Querem saber o que significam aquelas letras?
Lima Figueiredo – Sim.
Rapaz (sorridente) – I – Isto; F – Faz; O – o; C – Ceará; S – Secar: Isto Faz o Ceará Secar.

Todos riram até não poder mais, da tradução e da cara gozada que fez o rapaz.

O primeiro nome da cidade, Nossa Senhora da Assumpção, foi lembrado na matéria, assim como, também lembrado foi o forte erguido para protegê-la. Diante de tão grandiosa construção, os moradores passaram a chamar o forte de Fortaleza, mesmo os holandeses tendo batizado a construção (construída em 1649) de Schoonenborch.

Quanto ao nome do Estado, o Dr. Joaquim Catunda lhe disse: “Donde lhe veio o nome se duvida, entendendo uns que de suia-caça (Suposição errônea. A palavra Caça-çôo é da língua tupi), outros que do canto de um pequeno papagaio grasnador, abundante nas praias no tempo da descoberta. Com melhor fundamento pretende Candido Mendes que o nome é contração de Ciriá-poá, Ciri-á, Ciriá – e depois, Ciará, como primeiro se escreveu, nome que evoluiu das formas tupicas para as lusitanas e que lhe foi dado pelos primeiros colonos, os potiguares, transmigrados do Ceará-merim. Anteriormente, era o seu território denominado – sertão do Jaguaribe – na parte meridional, e do Camucy – na setentrional”.

Vou transcrever uma parte da reportagem de Lima Figueiredo onde ele fala sobre a geografia local:

O Ceará emergiu das profundas do oceano que separava as montanhas do sistema Guiano das do sistema Central do Brasil. Há formações cretáceas (era secundária) na serra do Araripe, onde se encontram camadas calcarias horizontalizadas com peixes fossilizados em abundância e excelentes mármores. O Atlântico cinzelou a orla litorânea do Nordeste em tudo semelhante à do continente africano na parte que lhe fica defronte. Praias desenvolvendo-se em curvas extensíssimas, sem a mínima quebra do seu caprichoso traçado. Dunas ondulantes que às vezes atingem a altura de quarenta metros, movendo-se daqui para ali ao sabor do mesmo vento que enfuna as velas dos bravos jangadeiros. Enfim, tudo serve para acentuar a similitude entre os dois litorais que se defrontam.

Três zonas distintas compartilham o território cearense: o litoral, o sertão e as serras. A primeira e a última são zonas de fixação, onde se acolhe a gente do sertão nas épocas das grandes secas. Na vertente das serras, a população se concentra fugindo do horror, do quadro macabro debuxado pela falta d´água, quando não procura o litoral em busca de outros Estados.

Os próprios dos rios são aproveitados para a agricultura, quando de todo se some a água. Com o estrume de cabras fazem leiras, onde viceja algo que ameniza a fome em dias aflitivos em que o “sertão se transforma em vasta fornalha que tudo devora; morna solidão invade os povoados, de que se retiram o movimento e a vida. Começa então um grande êxodo de cearenses e a Niobe americana, envolta em crepe de pó ardente, chora os filhos condenados à expatriação e à morte. Figuras esquálidas, macilentas, de todas as idades e sexos, de olhos encovados, vista empapada, voz sumida, pele sobre os ossos, imagens da fome se cruzam em todas a direções, e se atropelam em todas as estradas. Romeiros do infortúnio, ei-los vão sem saber onde...”.

Era o contraste da cidade moderna e higienizada com as misérias que a seca causava às populações do interior.

Sobre a resistência do cearense, Barão Homem de Mello contava o seguinte fato: “Certa ocasião, um engenheiro (seu amigo) acompanhava o trabalho de dois lenhadores, um cearense e outro espanhol, e dado o aspecto hercúleo do segundo, prognosticava para ele melhor rendimento. O ibérico empunhou o machado com firmeza e em poucas cutiladas produziu profundo sulco no tronco, dando a impressão que derrubaria dez árvores enquanto o pobre caboclo se via às voltas com uma somente. O cearense dava machadadas sem vigor, como se desejasse que o lenho permanecesse de pé. No fim de certo tempo, o espanhol procura descansar ... a fadiga do esforço inicial chumbava-lhe os músculos. O caboclo continuava obstinadamente, para daí a poucos momentos jogar por terra o colosso da floresta. Quando a árvore do estrangeiro caiu, o cearense estava com a segunda quase derrubada”.

E Lima Figueiredo encerrava a matéria exaltando a força do nordestino:
Com gente dessa marca é que se constroem as grandes pátrias...



Excelsior Hotel, Praça do Ferreira.


Praça do Ferreira.


Praça da Liberdade, perto da Igreja do Sagrado Coração de Jesus


Bairro Benfica




Agradecimento ao Arquivo Nirez







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