terça-feira, 2 de julho de 2013

O DOIS DE JULHO - A INDEPENDÊNCIA DA BAHIA

Mesmo com raízes anteriores, o movimento pela Independência da Bahia teve início em 1821.

Durante a Guerra da Independência do Brasil, a Bahia estava dividida: de um lado, portugueses que queriam manter a província como colônia de Portugal; e do outro, brasileiros, liberais, conservadores, monarquistas e republicanos se uniram no interesse comum em tornar a Bahia inserida na unidade nacional brasileira.

O desfecho se deu em 02 de julho de 1823, com a vitória brasileira.


Nessa luta, três mulheres tiveram especial importância: Maria Felipa, Joana Angélica e Maria Quitéria.

Embora elas tenham se destacado, muitas outras mulheres, entre costureiras, esposas, mães, filhas, escravas, lutaram para libertar seus maridos e filhos, tornando-se heroínas anônimas.



Maria Felipa





Era trabalhadora braçal, pescadora e marisqueira na Ilha de Itaparica.

Liderou mulheres negras, índios tupinambás e tapuias em batalhas contra os portugueses que atacavam a Ilha de Itaparica, a partir de 1822.

Em de seus feitos foi queimar 40 embarcações portuguesas que estavam próximas à ilha.

Era uma mulher muito alta, com grande força física, que liderou um grupo de 200 pessoas, que usavam como armas facas de cortar baleias, peixeiras, pedaços de pau e galhos com espinhos.

A pesquisadora de patrimônio cultural e histórico Eny Kleyde Farias, que em 2010 lançou o livro Maria Felipa de Oliveira: Heroína da independência da Bahia, conta que “as mulheres seduziam os portugueses, levavam pra uma praia, faziam com que eles bebessem, os despiam e davam uma surra de cansanção”.

Cansanção é um vegetal que, como a urtiga, provoca a sensação de queimadura na pele. No seu caso, porém, o efeito é bem maior e causa muito mais bolhas.

Após a independência baiana, Maria Felipa continuou liderando a pobre população da Ilha de Itaparica. Durante a primeira cerimônia de hasteamento da bandeira do Brasil na Fortaleza de São Lourenço, na Ponta das Baleias, Felipa e seu grupo invadiram a armação de pesca de um português rico e surraram um vigia, mostrando que as rivalidades entre portugueses e brasileiros (principalmente os pobres) não terminaram em 02 de julho.

Há alguns versos cuja autoria seja atribuída à Maria Felipa: Havemos de comer marotos com pão, dar-lhes uma surra de bem cansanção, fazer marotas morrer de paixão.


Joana Angélica



Ainda nos primeiros dias de medo e insegurança que tomaram conta da Bahia, em fevereiro de 1822, a abadessa Joanna Angélica se tornou a primeira heroína e mártir da independência.

O general português Madeira de Melo lutava com violência contra a oposição do comando brasileiro. Quando ocorreu o ataque ao quartel da Mouraria, soldados portugueses tentavam invadir o Convento da Lapa, procurando armas e inimigos supostamente escondidos.

A sóror (irmã) Joanna Angélica de Jesus (nascida em Salvador, em 12 de dezembro de 1761), estava com 60 anos e dirigia o Convento pela segunda vez. 

No interior do Convento foram ouvidos os gritos dos soldados. Joanna Angélica, temendo que as internas fossem abusadas por eles, pede que elas fujam pelo quintal. Quando a entrada principal, um portão de ferro, foi derrubada, ela abriu a segunda porta, postando-se na passagem, de braços abertos. Historiadores contam que ela proferiu as seguintes palavras aos soldados: “Para trás, bandidos. Respeitem a Casa de Deus. Recuai, só penetrareis nesta Casa passando por sobre o meu cadáver”.
Os soldados a atacaram com golpes de baionetas. No Convento só estava o velho capelão, padre Daniel da Silva Lisboa, que foi espancado com golpes de coronhas, ficando quase morto.

Joanna Angélica faleceu no dia seguinte, em 20 de fevereiro de 1822.


Quadro do século XIX retratando o martírio de Joanna Angélica.
Autor anônimo.


Seu assassinato serviu como um dos estopins para o inicio da revolta dos brasileiros.

De acordo com a Doutrina Espírita Joana Angélica teria sido uma das encarnações do espírito de luz Joanna de Ângelis.

Joana Angélica, atualmente, é o nome da principal avenida do bairro de Nazaré, onde fica o Convento da Lapa.




Maria Quitéria

Pintura de Domenico Failutti, 1920.


Em 1822, o soldado Medeiros juntou-se às tropas que combatiam os portugueses no movimento de Independência do Brasil. 
Ele era muito hábil com as armas, disciplinado e atencioso. 
Essas características eram merecedoras de destaque. 

Mas, um detalhe o faria chamar mais atenção que suas habilidades, Medeiros era uma mulher: Maria Quitéria de Jesus Medeiros, que foi a primeira brasileira a integrar uma unidade militar no País.

Ela nasceu em Feira de Santana (BA), em 27 de julho de 1792.
Não se contentando em assumir o papel que cabia às mulheres do século XIX, Maria Quitéria fugiu de casa para lutar pela Bahia. Nessa época, ela estava noiva. Seu pai, Gonçalo, era viúvo e não tinha filho varão. Para sua surpresa, Maria lhe pede autorização para se alistar. Seu pai, como era de se esperar, nega-lhe o pedido. Nisso, ela fugiu para a casa de sua meia irmã, Teresa Maria, casada com José Cordeiro de Medeiros. Com a ajuda dos dois, Maria cortou os cabelos e vestiu o uniforme de seu cunhado. E, assim, vestida como homem, ela se dirigiu à vila de Cachoeira, onde se alistou sob o nome de Medeiros, no Regimento de Artilharia.

Maria permaneceu oculta como Medeiros por duas semanas, quando foi descoberta por seu pai.

Ela foi defendida pelo Major José Antônio da Silva Castro (avô do poeta Castro Alves), comandante do Batalhão dos Voluntários do Príncipe (o Batalhão dos Periquitos). Ela foi incorporada à essa tropa devido à sua coragem em lutar. Nessa ocasião, só aconteceu uma mudança: foi adicionado um saiote à escocesa ao seu uniforme.

No Batalhão dos Periquitos (apelido devido ao uso de mangas e golas verdes), ela lutou em combates na Bahia de Todos os Santos, Ilha de Maré, Barra do Paraguaçu, na cidade de Salvador, na estrada da Pituba, Itapuã e Conceição.

Em 02 de julho de 1823, Maria Quitéria entrou ao lado do Exército Libertador na cidade de Salvador. O Batalhão entrou em triunfo e Maria foi saudada e homenageada pela população em festa. O Governo da Província deu-lhe o direito de usar espada. Na condição de Cadete, ela envergava uniforme de cor azul, com saiote que ela mesmo elaborou, além de capacete com penacho.
  
Devido à sua coragem em fingir ser um homem para combater, o general Labatut lhe deu honras de Primeiro Cadete e um decreto Imperial lhe conferiu as honras de Alferes de Linha (posto em que se reformou)..

Em 20 de agosto ela foi recebida por D. Pedro I no Rio de janeiro, que a condecorou com a Imperial Ordem do cruzeiro, no grau de Cavaleiro, pronunciando as seguintes palavras: “Quero conceder a D. Maria Quitéria de Jesus o distintivo que assinala os Serviços Militares que com denodo raro, entre as mais de seu sexo, prestara à Causa da Independência deste Império, na porfiosa restauração da Capital da Bahia, hei de permitir-lhe o uso da insígnia de Cavaleiro da Ordem Imperial do cruzeiro”.
Aproveitando a ocasião, Maria Quitéria pediu ao Imperador uma carta solicitando ao pai que a perdoasse por sua desobediência.

Já perdoada pelo pai, Maria Quitéria casou-se com o lavrador Gabriel Pereira de Brito, o antigo noivo, e teve uma filha, Luísa Maria da Conceição.
Viúva, ela mudou-se para Feira de Santana, em 1835, onde tentou receber a parte que lhe cabia na herança paterna. Desistiu do inventário, devido à morosidade da Justiça. Então, ela mudou-se com sua filha para Salvador, onde faleceu aos 61 anos de idade, em 21 de agosto de 1953, quase cega e no anonimato.
Seus restos mortais estão sepultados na Igreja Matriz do Santíssimo Sacramento e Sant´Ana, no bairro de Nazaré, em Salvador.

Dela, ficariam registradas as impressões do pesquisador Aristides Milton, que considerava-a “tão valente quanto honesta senhora”; e da inglesa Maria Graham, que deixou registrado: “Maria de Jesus é iletrada, mas viva. Tem inteligência clara e percepção aguda. Penso que, se a educassem, ela se tornaria uma personalidade notável. Nada se observa de masculino nos seus modos, antes os possui gentis e amáveis”.

Entre as muitas homenagens posteriores que recebeu ao longo do século XIX e XX, está o Decreto da Presidência da República, datado de 28 de junho de 1996, onde Maria Quitéria foi reconhecida como Patrono do Quadro Complementar de Oficiais do Exército Brasileiro. Sua imagem encontra-se em todos os quartéis, estabelecimentos e repartições militares da Força, por determinação ministerial.

Maria Quitéria também é conhecida como a Joana d´Arc brasileira.

Em 1953, por ocasião do centenário de sua morte, foi erguida uma estátua no Bairro da Liberdade, em Salvador.




ODE AO DOUS DE JULHO

de Castro Alves


(Recitada no Teatro de São Paulo)

Era no Dous de Julho. A pugna imensa
Travara-se nos cerros da Bahia...
O anjo da morte pálido cosia
Uma vasta mortalha em Pirajá.
"Neste lençol tão largo, tão extenso,
"Como um pedaço roto do infinito ...
O mundo perguntava erguendo um grito:
"Qual dos gigantes morto rolará?! ...

Debruçados do céu. . . a noite e os astros
Seguiam da peleja o incerto fado...
Era tocha - o fuzil avermelhado!
Era o Circo de Roma - o vasto chão!
Por palmas - o troar da artilharia!
Por feras - os canhões negros rugiam!
Por atletas - dous povos se batiam!
Enorme anfiteatro - era a amplidão!

Não! Não eram dous povos os que abalavam
Naquele instante o solo ensangüentado...
Era o porvir - em frente do passado,
A liberdade - em frente à escravidão.
Era a luta das águias - e do abutre, 
A revolta do pulso - contra os ferros, 
O pugilato da razão - com os erros, 
O duelo da treva - e do clarão! ...

No entanto a luta recrescia indômita
As bandeiras - corno águias eriçadas -
"Se abismavam com as asas desdobradas
Na selva escura da fumaça atroz...
Tonto de espanto, cego de metralha
O arcanjo do triunfo vacilava...
E a glória desgrenhada acalentava
O cadáver sangrento dos heróis!

Mas quando a branca estrela matutina
Surgiu do espaço e as brisas forasteiras 
No verde leque das gentis palmeiras
Foram cantar os hinos do arrebol,
Lá do campo deserto da batalha
Uma voz se elevou clara e divina.
Eras tu - liberdade peregrina!
Esposa do porvir - noiva do Sol!...

Eras tu que, com os dedos ensopados
No sangue dos avós mortos na guerra,
Livre sagravas a Colúmbia terra,
Sagravas livre a nova geração!
Tu que erguias, subida na pirâmide
Formada pelos mortos do Cabrito,
Um pedaço de gládio - no infinito...
Um trapo de bandeira - n'amplidão!. ..


(S. Paulo, junho de 1868)







Fontes:
http://www.jornaldepoesia.jor.br/
http://pt.wikipedia.org/
http://www.tribunadabahia.com.br/


Agradecimento ao Arquivo Nirez





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