domingo, 21 de julho de 2013

PEPA DELGADO, os 126 anos da primeira grande cantora brasileira.

Pepa Delgado
Arquivo Marcelo Bonavides
Fotografia sem data.



Há 126 anos, em 21 de julho de 1887, nascia Maria Pepa Delgado, na cidade de Piracicaba, interior de São Paulo. Nacionalmente, e para a posteridade, ela ficaria conhecida por PEPA DELGADO.

Venho há vários anos tentando publicar algo sobre ela (livro ou álbum, ou até livro de bolso) onde pudesse divulgar o que já encontrei. Ainda falta pesquisar bastante coisa, por isso, a pesquisa continua.
Infelizmente, pela falta de patrocínio, uma publicação com o que já foi encontrado ainda não foi produzida.
O único lugar em que eu vou soltando alguma coisa é por aqui, em entrevistas, alguns artigos em jornais.
Quem quiser conhecer um pouco mais em detalhes, a vida de Pepa Delgado e outras atrizes de seu tempo, eu indico a biblioteca da Estácio FIC, aqui em Fortaleza, campus Via Corpus. O livro reportagem que eu escrevi, por ocasião de minha graduação em jornalismo (e por isso, só possui essa cópia, fora a minha), encontra-se nesse local. O título é Nossas Atrizes Cantoras: de 1859 a 1926.
Quem sabe isso muda.


Um pouco sobre Pepa Delgado






Sua mãe era natural de Sorocaba (SP) e chamava-se Ana Alves.
Seu pai, Lourenço Delgado, nasceu na Espanha e era toureiro por profissão. 
Ao vir para o Brasil, adotou a profissão de fotógrafo.

Foi no Rio de Janeiro que ela passou a morar, no comecinho da década de 1900, onde abraçou a profissão de atriz. No início, fazia pequenos papéis em comédias e musicais. Mas, aos poucos, foi se destacando e mostrando talento para papéis cômicos, brejeiros e soltando a voz.
Seu carisma era forte e seu prestígio aumentava.

Em 1904, ano em que completou 17 anos, foi convidada a gravar discos para a Casa Edison, passando a ser uma das primeiras mulheres a gravar no Brasil sendo que, destas pioneiras, Pepa é a mais conhecida e a que mais registros chegou até nós. Interessante é o fato de, em algumas gravações, ela mesmo se anunciar, já que aparentemente nenhuma outra cantora fez isso, pois, haviam locutores para desempenhar essa tarefa.

A, então, adolescente já dividia as chapas gravando músicas célebres ao lado de gente famosa, como Maxixe Aristocrático, música da peça de sucesso Cá e Lá (de 1904), gravada ao lado do astro Alfredo Silva.

Seu talento para a comédia podia vir acompanhado de uma boa dose de pimenta (malícia), quando cantava e interpretava cançonetas (e até valsas!) de duplos sentidos. Os artistas de seu tempo não tinham somente músicas picantes em seus repertórios (elas, talvez, causem mais sensação hoje, que esperamos ver em épocas passadas um cenário cem porcento inocente).
Variados estilos, como canções, fados, valsas, maxixes, lundus, romanzas, habaneras, eram interpretados por ela nos palcos da revistas, burletas, operetas, comédias e dramas em que participava.

Atriz pioneira, ela também seria uma de nossas primeiras estrelas a atuar no cinema.
O primeiro filme foi o curta Sô Lotéro e Nhá Ofrásia com seus productos à Exposição, de 1908. Oportunamente, essa comédia dirigida por Antônio Leal, abordava a grande Exposição de 1908 ocorrida no Rio de Janeiro, ou melhor, Exposição Nacional Comemorativa do 1º Centenário da Abertura dos Portos do Brasil. Pelo título e gênero do filme podemos imaginar a abordagem dos tipos estereotipados do caipira, que muito sucesso fazia nos teatros de então, ganhando o cinema. Pelos jornais da época, vemos que, além de comédia, era uma crítica aos acontecimentos sendo, dessa forma, uma revista filmada.

Mostrando a versatilidade característica dos artistas de seu tempo, Pepa Delgado também se sobressaia em produções religiosas, como o filme Os Milagres de Nossa Senhora Aparecida, de 1916, dirigido por Arturo Carrari.

Poucos anos depois, ele se casou com Almerindo Álvaro de Moraes, passando a se chamar Maria Pepa Delgado de Moraes. É interessante essa união. Em uma época onde atrizes eram sempre mal vistas e tinham (injustamente) uma má reputação, vemos a união de uma atriz com um militar bem sucedido e com uma promissora carreira. E mais: vindo de uma família de sólida tradição militar. 
Ela já era uma atriz consagrada, famosa, independente. Mesmo depois de casada, ainda manteve sua Companhia Pepa Delgado. Só se aposentou quando engravidou de seu único filho, Heitor. Mas, nunca deixou de apoiar e ajudar seus ex-colegas e artistas novatos.

Muitos já conhecem seus feitos que não se encontram em papéis para registro póstumo, mas, que eram repetidos e reconhecidos por seus contemporâneos e passados adiante. Ela solicitou a Fred Figner, dono da Casa Edison, que doasse o terreno que tinha em Jacarepaguá para a construção da Casa dos Artistas, depois, Retiro dos Artistas. Na época, vários artistas se empenharam nisso. Ela, antiga estrela da Casa Edison, pode muito bem ter contribuído com sua influência.

Outra história repetida é a de que ela ajudou e incentivou Vicente Celestino no começo da carreira do tenor. Vicente, ainda jovem e iniciante, participou de peças ao lado de Pepa. Em A Sertaneja, de Viriato Correia e música de Chiquinha Gonzaga, onde ela era a protagonista, ele teve destaque no papel de Jandaya.
Já casada, ela e o esposo acolheriam o jovem Colé Santana. Segundo Heitor, filho de Pepa, Colé chegou a morar no porão da casa de seus pais.

A curiosa história da menina Abigail. 
Nascida em uma aldeia indígena no Paraná, foi entregue por sua mãe aos cuidados de Pepa, que estava em excursão nesse Estado. A pequena foi adotada por um amigo da cantora, o maestro Felippo Alessio, que a levou para São Paulo. Mais tarde, a menina se tornaria a célebre soprano Abigail Alessio Parecis, que anos depois adotaria o menino e futuro ator Grande Othelo.
Verdade ou versão romantizada de suas origens, o fato é que Abigail era filha adotiva de Felippo e afilhada de batismo de Pepa Delgado. Quando recebi uma parte do acervo de Pepa, constatei duas fotografias de Abigail. Uma, datando de 1915, e outra de 1929, já cantora consagrada. Em ambas há a afirmação de Abigail ser afilhada de batismo da cantora.


Conversas com Heitor Delgado
Durante a década de 1990, tive o prazer de conversar por telefone com o sr. Heitor Delgado de Moraes. Durante várias vezes pudemos falar e relembrar sua querida mãe. Infelizmente, não pude conhecê-lo pessoalmente quando fui ao Rio de Janeiro visitar a família Delgado. Ele havia falecido. Sua filha estendeu a mim toda atenção que seu pai me dedicou e ainda me presenteou com vários objetos, discos e fotografias que haviam pertencido à atriz.
Mas, isso é assunto para um novo post.

Aguardem!




Fotos e Jornais


Sorte de pesquisador.
Entre as fotos que recebi de D. Tânia Delgado, neta de Pepa, estava essa.
Pepa Delgado sentada ao centro, rodeada de colegas de uma provável companhia teatral.
Não havia data. Mas, pelas roupas, eu deduzi ser de meados da década de 10.

Um dia, pesquisando em jornais e revistas antigos, encontrei a mesma foto publicada em um periódico, Jornal das Moças.
Lá, a legenda afirmava tratar-se da Companhia Alfredo Silva, do Theatro São José. A data da publicação batia com o que eu pensei, 1915. Mas a foto pertencia ao acervo da Biblioteca Nacional, disponibilizado na Internet.
Por minha sorte, encontrei a mesma revista à venda em um sebo!
E, aqui, reproduzo a foto original, emoldurada, e a da revista que eu comprei.

Embora sem mencionar ninguém, podemos identificar alguns artistas, como o próprio Alfredo Silva (em pé, atrás de Pepa), para quem olha a foto, à esquerda de Pepa, está sentada a atriz portuguesa Laura Godinho. Ainda há o cenógrafo Abílio, as atrizes Júlia Martins e Stella Pradel. Detalhe para o simpático cachorrinho. 



Companhia Alfredo Silva.
Arquivo Marcelo Bonavides.


Companhia Alfredo Silva.
Jornal das Moças, 1915.
Arquivo Marcelo Bonavides.


Nos tempos em que integrou a Companhia Alfredo Silva, 1915.
Arquivo Marcelo Bonavides.




Cá e Lá.
Tagarela, 09 de junho de 1904.
http://memoria.bn.br


Seção de teatro do periódico Tagarela.
Festa de benefício de Pepa Delgado.
Tagarela, 18 de agosto de 1904.
http://memoria.bn.br


estréia de Pepa Delgado no cinema, no curta de Antônio Leal: 
Sô Lotéro e Nhá Ofrásia com seus productos à Exposição, 1908.
Correio da Manhã - terça-feira, 25 de agost
o de 1908.
http://memoria.bn.br


As Duas Orphãs.
Correio da Manhã, quinta-feira, 27 de agosto de 1903.
http://memoria.bn.br



As Músicas

Trago cinco gravações feitas por Pepa Delgado datando de 1904 e 1910.
Ao final dos arquivos, vocês podem conferir as letras.
A primeira, O Eixo da Avenida, fazia parte da revista O Avança! e possui um delicioso duplo sentido.
O disco pertencia à própria Pepa e me foi doado por sua neta, Tânia.
Volto a chamar atenção ao fato da própria atriz se anunciar em duas das músicas aqui selecionadas, uma vez que haviam locutores que faziam essa tarefa.


O Eixo da Avenida
(A Menina do Eixo)
Valsa da revista O Avança!
Da autoria do maestro Assis Pacheco
Letra com duplo sentido
Disco Odeon Record 10.065
Lançado em 1904




Selo do disco Odeon Record 10.065,
O Eixo da Avenida.
Arquivo Marcelo Bonavides.




Os demais discos, que fazem parte do Arquivo Nirez, foram gravados por Pepa Delgado na Columbia Record em 1910.
Em 1912, eles foram relançados.
As gravações seguintes são as originais de 1910, mas, em discos relançados em 1912.
Sua numeração começava com B e a matriz trazia o número do disco original.



A Cozinheira
Cançoneta
Acompanhamento de Orquestra
Disco Columbia Record B-31, matriz 11.626
Lançado em 1912




O Vatapá
Tango de Paulino Sacramento
Gravado em dueto com Mário Pinheiro
Acompanhamento de Orquestra
Disco Columbia Record B-31, matriz 11.644




A Viuvinha
Cançoneta
Acompanhamento de Piano
Disco Columbia Record B-39, matriz 11.716
Lançado em 1912




A Lavadeira
Cançoneta da revista Só Pra Homens
Acompanhamento de Piano
Disco Columbia Record B-39, matriz 11.735
Lançado em 1912






As Letras

Com exceção de O Eixo da Avenida (cuja letra encontrei no libreto de Avança!, no acervo do IMS, em São Paulo), as letras foram tiradas de ouvido por mim, em longas e repetidas audições. Podem haver erros.
Mas, podemos observar raros registros de trechos do teatro de revista do começo do século XX, a desenvoltura da atriz e uma crítica à sociedade e costumes em cada gravação.


O Eixo da Avenida
(A Menina do Eixo)

Já não tenho prazer nesta vida
Infeliz, como eu sou, jamais vi!...
Pois por causa da tal avenida
O meu noivo querido perdi
Era um moço de louro cabelo
Olhos grandes, chamava-se Aleixo
Mas, fugiu! Nunca mais pude vê-lo...
Desde que houve...a abertura do eixo.

A princípio, era bom, amoroso
Sempre amável e sempre a sorrir...
Tão gentil, tão...tão...tão carinhoso!
E tão mau afinal me sair!
Enganou-me o tratante, o malvado!
Desse engano é que aflita me queixo
Percebi que me havia enganado
Só depois... da abertura do eixo!

Conheci-o num baile valsando...
Vê-lo e amá-lo foi quanto bastou!
Ai, Jesus! Chorarei até quando?...
Que infeliz! Que infeliz, ai que eu sou!
Enganou-me o vilão, foi esperto!...
E a culpada foi eu! É bem feito!
Mas agora que está o eixo aberto
Vou ter noivos a torto e a direito.


A Cozinheira

Eu sou cozinheira
De tais feiticeira
Segredos não tenho
Meu fim, sei fazer
Fritar no tempero
Com ar de lampeira
Fazendo petiscos
Dou salto a valer
Correndo a cidade
Não vejo rival
Não há quem
Me leve num falso arrastão
Portanto vaidosa
Eu digo em geral
Eu sou cozinheira de fogão.

Arroz, carne assada
Farofa cheirosa
Galinha ensopada
Fritada gostosa
Pequenas sardinhas
já não vou roubá-lo
E outras coisinhas
Que é mesmo um regalo

A minha patroa
Não come maxixe
O dono da casa
Tem birra ao jiló
A vida só leva
Dizer que é preciso
Que gosta de muito
Comer mocotó
Estando eu distante
Da tal confusão
Quitute foi feito
Pra me consertar
Fiteira, garbosa
De volta ao fogão
Eu vou pra cozinha

Inda preparar

Se algum dos senhores
quiserem, lhe digo
Aqui, eu não vivo
e não dão a saber
Não tenho vergonha
que eu vivo cativa
E faço trabalho 
por pouco dinheiro
Apronto jantares 
como bom prazer
A todos agada
meu bom paladar
Por isso me obriga
de ter o dever
de ser cozinheira
no trabalhar.



O Vatapá

Pepa:
O vatapá, comida rara
É assim, yayá, que se prepara.

Você limpa a panela bem limpa
Quando o peixe lá dentro já está
Bota o leite de coco e o gengibre
A pimenta da Costa e o fubá
Camarão torradinho se ajunta
Ao depois da cabeça tirada

Mário:
Mas então a cabeça não entra?

Pepa:
Qual cabeça, seu moço que nada...

Mexe direito pra não queimar
Mexe direito o vatapá...

Pepa:
Mindubim ou castanha torrada
O azeite do bom, de dendê
Na panela se bota e se mexe
Mas, precisa de mão pra mexer

Mário:
Pois, então, sinhá dona
eu mexo
Que sou cabra feroz neste assunto
Vem cair, já, num bom remelexo
Vamos, vamos, mexer nós dois juntos!



A Viuvinha

Choro: Ai, meu Deus, ai!
Como eu sou infeliz, meu Deus!

Viúva sou há quase um mês
E choro a triste viuvez
Pois meu marido era tão belo
Que era corcunda e sem cabelo
Sempre com mágoa me lamento
Que sempre evitei viver
Quando penhoro o pensamento
Não é capaz de lhe esquecer

Já morreu, levou a breca
Graça aos Céus!
Graça aos Céus!
O estafermo do marreca foi
já morreu!
Pulo e salto de contente
Oh, devoção!
Oh, devoção!
Ser viúva é excelente
Que reinação
Oh, ferro!

Volta a chorar: Ai, meu distinto marido, ah!

- Quer um lenço, minha senhora, eu tenho aqui.
- Eu não preciso, não.

Sempre foi anjo e bom rapaz
O que na cova agora jaz
Pois raramente me batia
Mais de uma vez em cada dia
Enorme mágoa me consome
Pois sempre falta hei de ter
Com minha pena passei fome
Quando não tinha que comer

Já morreu, levou a breca
Graça aos Céu!
Graça aos Céu!
O estafermo do marreca, vai
já morreu!
Pulo e salto de contente
Oh devoção!
Oh de voção!
Ser viúva é excelente
Que reinação!

- Vou me tornar a sentar.
Ai, meu Deus
Meu rico maridinho



A Lavadeira

Tua roupa suja limpando
Esquece a gente falar
Não é por me estar gabando
Que há muito o que contar

- Sim, isso que, 
uma coisa é a gente ver por ai.
Por essas ruas
Estas madamas todas
chiques e elegantes.
Trajando seda
E o custo de vida aumentando
E outra coisa e lidar-lhe
com as roupas brancas
Xi...

Dá-lhe que dá-lhe
ponto aqui, ponto acolá
Raro é aquela que não sabe
roupa toda se limpar


E com os homens acontece
A mesma coisa também
Muito que rico parece
Que uma só camisa tem

- E um par de meias
E um colarinho
E um , e um par de punhos
E uma camisola
E um, e um único de sardas
De maneira que
não só esta coisa 
vem lavar pouca coisa
Como gente lava

Lava que lava
Traz a qual o destino cru
Enquanto a gente o secava
Ele espera a roupa nu


Sujeito que por valente
Passa de tal bazofia
Veio um perguntar a gente
No que dá a valentia

- Sim, a gente logo conhece no que dá a valentia
Quando é um valente assim,
Um freguês valente
Oh, e tinha aqui de rolo, implicâncias
Conta que tinha havido um rolo!
Porque a lavadeira logo, logo conhece

Esfrega, que esfrega
Por mais que lhe tire o sabão
Como troféu da refrega
As ceroulas lá no chão


Tua roupa suja limpando
Esquece a gente falar
Não é por me estar gabando
Que há muito o que contar

- Se eu contasse tudo, tudo
Xi... era pra quinze dias
bem uma saída!
Levava convencendo as pessoas
E eu, então, pra não aborecer
pego na roupa e é:
Da-lhe que da-lhe
Ponto aqui, ponto acolá
Rara é aquela que não sabe
a roupa toda agilizar








3 comentários:

  1. Achei muito legal a sua pesquisa: há mais de uma vez que visito esse blog! É verdade que não se estimula muito a procurar ícones da cultura brasileira, mas são trabalhos assim que incentivam a conhecer a história que a gente tem. Muito bom trabalho, continue assim. :)

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  2. Hoje conheci acho que foi o filho dela. Ele me contou um pedaço da história da mãe dele. Ele mora no bairro encantado próximo a rua Guilhermina. Almoça sempre no bar encanto do bairro de frente a saída 3 da linha amarela.

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    Respostas
    1. Olá Fox!
      Deve ter sido o dr. Hércules, o neto dela. O filho dela já é falecido.
      Muito legal você ter conhecido!
      Abraços!

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