quarta-feira, 4 de setembro de 2013

CARMEN BARBOSA, Alegrias e Saudades



O cenário musical dos anos 30 foi, sem dúvida, um dos mais ricos de todos os tempos. Até hoje encontramos fãs de artistas que começaram suas carreiras nessa longínqua década. Porém, na formação dessa riqueza também tomaram parte alguns artistas que tiveram participações meteóricas, seja no disco, rádio, teatro. Mesmo tendo uma curta carreira na música, muitos deles deixaram sua marca e o gostinho da saudade em seus admiradores.

Alguns saíram de cena por motivos pessoais, como o casamento ou um emprego mais estável, já outros se retiraram pelo fato de suas jovens vidas terem chegado ao fim.

Assim aconteceu com a cantora CARMEN BARBOSA.

Ela foi, sem dúvida, uma das melhores sambistas que já conhecemos, dona de bonita voz e dicção perfeita. Carmen Barbosa tinha toda a bossa para interpretar sambas e marchas.
Infelizmente, ela faleceu em 03 de setembro, no ano de 1942, vitimada pelo diabetes. 
Pouco antes, havia amputado uma perna.
E querem saber o que e mais irônico e incomum de tudo isso? No dia seguinte seria seu aniversário. Pois é... Ela se enterrou no dia em que estaria completando trinta anos, em 04 de setembro de 1942.
Enfim, a vida tem desses mistérios.

O artigo que escrevi foi baseado em minhas pesquisas e também nas pesquisas da jornalista e pesquisadora musical Thais Matarazzo e no acervo do Arquivo Nirez.


Carmen Barbosa nasceu no Rio de Janeiro, no bairro do Catumbi, em 04 de setembro de 1912. 
Tinha sete irmãs. De família humilde, com uma ótima voz, desde criança gostava de cantar.
Ela era uma moça reservada, que não gostava muito de se expor à publicidade, mesmo quando estava fazendo sucesso.

Sua carreira teve início em 1932. Devido à sua boa voz, passou a fazer parte do coro nas gravações de Carmen Miranda, na Victor.
Ela começou no rádio em 01 de dezembro 1934, na Rádio Cruzeiro do Sul, indo depois para a Rádio Tupi.
Sua oportunidade surgiu em 23 de dezembro de 1934, quando foi chamada a substituir a cantora Madelou de Assis, que havia faltado um programa de rádio por estar doente.

Do rádio para o disco foi um caminho natural.
Estreou na gravadora Columbia com o pé direito, interpretando dois sambas da autoria de Pixinguinha e Cícero de Almeida , o Baiano (não confundir com o cantor da Casa Edison). Gravou também alguns discos na Victor e um na Odeon. Entre os compositores que gravou, só havia bambas: Herivelto Martins, Buci Moreira, Roberto Martins, Zé Pretinho, Benedito Lacerda, só para citar alguns
Aliás, Benedito Lacerda foi seu amigo e grande incentivador, compondo várias músicas para ela e acompanhando suas gravações com sua flauta.

Ao todo, ela gravou 27 músicas em 14 discos.

Com seu talento para o samba e bonita voz, Carmen Barbosa conseguiu vencer sozinha. Em suas gravações era afinada, sabia colocar sua personalidade e a malícia necessária, caso a música pedisse.
Bonita, era morena, cabelos negros, olhos castanhos escuros, pesava 56 quilos, medindo 1,58 metros. Em algumas reportagens era citada como a Estrela Morena.

Atuou também na Rádio Club, onde ficou até seu falecimento.

No rádio, tinha como colegas, Sônia Barreto, Trio de Ouro, Francisco Alves, Gastão Formenti, Noel Rosa, Antenógenes Silva, Sylvinha Mello, entre outros cartazes.



Na Rádio Tupi, anos 30.
A foto foi publicada na Revista do Rádio de setembro de 1948,
em matéria que relembrava artistas dos anos 30.


Em 30 de dezembro de 1939, não pode comparecer ao evento organizado pela Rádio Clube, por estar adoentada. Dircinha Batista, que iria se apresentar, cantou também as músicas de Carmen.

Em 1940, ainda estava adoentada, vítima do diabetes, mesmo assim continuou cantando no rádio.

Em setembro desse mesmo ano, fez uma temporada em São Paulo, nas Rádios Cosmo e Cruzeiro do Sul, ao lado de Elisa Coelho e Orlando Silva.

No intervalo entre 1940 e 1941, passou a cantar esporadicamente.

Desde o final de 1941 e ainda no primeiro semestre de 1942, a imprensa soltava notícias e reportagens esperançosas, afirmando que ela voltaria em breve ao microfone da Rádio Clube.

Mas, a doença lhe impossibilitava de trabalhar.

Doente, esquecida e sem condições de se tratar, foi encontrada em sua casa pelo humorista Barbosa Junior, que mobilizou a classe artística no intuito de ajudá-la, já que ela se encontrava em dificuldades financeiras.
O jornal Diário da Noite sempre esteve ao lado de Carmen Barbosa durante sua enfermidade. 

Estampou com alegria o fato de que ela, mesmo afastada, tencionava voltar ao rádio.

"Com saúde a vida é outra coisa. E estou louquinha para voltar ao microfone. Quero cantar muito. Voltar a me corresponder com meus fãs. Não imagina o Diário da Noite as saudades que eu tenho sentido da cadência do samba. Dessa cadência que é como bater do grande relógio da existência, marcando a vida da gente. quando esse relógio não trabalha, como que não vivemos.", afirmava a cantora.

Suas amarguras e saudades eram disfarçadas sob seu sorriso franco, cheio de vivacidade.

"Para que chorar? Sorrindo a gente esquece. E esquecer é uma maravilha.", ainda ensinava Carmen.

O Diário da Noite também exprimia a revolta de seus editores durante o agravo da enfermidade da cantora. Chegou a ajudá-la financeiramente, na pessoa de alguns colaboradores. Carmen também recebeu a solidariedade de uns poucos amigos. Segundo o jornal, ela estava esquecida. A maioria dos que a aplaudiram quando estava no apogeu havia desaparecido. Entre os artistas que se emprenharam em ajudá-la, o jornal citava Moreira da Silva e Benedito Lacerda, que organizavam um espetáculo em benefício da cantora.

Em agosto de 1942, Carmen Barbosa precisou amputar uma de suas pernas. Isso só agravou seu estado. Os colegas chegaram a providenciar uma perna mecânica, mas, o tempo para Carmen estava se extinguindo. Ela não chegou a usar a prótese.
Na época de seu falecimento, Carmen Barbosa era contratada da Rádio Club (ou Clube). O diretor Renato Murce chegou a se defender (e a própria Rádio) das acusações do jornal em 02 de setembro de 1942. 

No dia seguinte, 03 de setembro de 1942, uma quinta feira, Carmen Barbosa falecia.

Ela foi sepultada no dia seguinte, 04 de setembro de 1942, o mesmo dia de seu aniversário onde completaria 30 anos.


Ela foi uma pessoa que, mesmo esquecida por uns, despertou o sentimento de pesar em quem menos era de se esperar. Foi o caso do Jornal do Brasil que, em 27 de setembro de 1942, quase um mês após o falecimento da cantora, emitiu uma nota onde afirmava não gostar do samba e de seus intérpretes, mas se compadecia do drama de Carmen Barbosa. Ainda expunha o fato dela ter morrido em extrema pobreza e esquecida pela maioria dos colegas. Segundo o jornal, as pessoas que se dedicavam aos gêneros populares, como o samba de morro, eram "egoístas" e "desunidas".

É preciso lembrar que alguns artistas, pessoas que se dedicavam ao gênero popular e aos sambas de morro, também se empenharam em ajudá-la. Nem todos foram egoístas ou desunidos.







Jornal do Brasil,
27 de setembro de 1942.
http://memoria.bn.br





Caricatura de Carmen Barbosa.
Coluna Radioatividades, Jornal das Moças, 1941.
http://memoria.bn.br





A expectativa da volta após uma melhora na saúde

A Noite Illustrada, 1941.
http://memoria.bn.br




Notícias do jornal DIÁRIO DA NOITE sobre a enfermidade de CARMEN BARBOSA

11 de abril de 1942



17 de julho de 1942




05 de agosto de 1942




12 de agosto de 1942




21 de agosto de 1942




01 de setembro de 1942




02 de setembro de 1942




05 de setembro de 1942
(na verdade Carmen faleceu no dia 03, e não no 04 como dá a entender a reportagem.
Ela fazia aniversário em 04 de setembro).




07 de setembro de 1942




09 de setembro de 1942






Outros periódicos

A NOITE

04 de setembro de 1942



 10 de setembro de 1942










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