terça-feira, 10 de dezembro de 2013

ALZIRINHA CAMARGO - 98 ANOS (Uma entrevista)




Hoje, a cantora ALZIRINHA CAMARGO completaria 98 anos.

Nascida em 10 de dezembro de 1915 no bairro paulistano do Brás, Alzira de Camargo ficaria conhecida como Alzirinha Camargo no meio musical dos anos 30, onde era uma das mais queridas estrelas.

Já falamos sobre sua vida e carreira aqui: http://zip.net/bqlMph

Hoje, trago alguns trechos de uma entrevista realizada por Luiz Carlos Sarmento para o jornal Shopping News, de São Paulo, publicado no nº1240, em 16 de maio de 1976. A pesquisa desse periódico foi feita por Thais Matarazzo, que escreveu uma ótima monografia sobre Alzirinha Camargo.

A entrevista (postada aqui em duas partes), foi realizada em uma madrugada na casa de Alzirinha, tendo por companhia Geraldo Hudson, amigo da cantora, trazia o título Confissões de Alzira Camargo, 40 anos depois - Do Brás à Broadway.
Alzirinha contava sua vida e carreira, não escondendo as decepções que tinha em 1976:

"Não compreendo como alguns artistas do meu tempo passam por mim e fingem que não me reconhecem. É muito triste. Tenho medo de chegar para uma deles e perguntar na rua e perguntar: 'Alô, não lembra de mim?'. Será inveja? Ou medo de que olhando para mim eles percebam que envelheceram? Sinceramente, não entendo. A única coisa que sei é que dói muito.
É triste, você não acha? Eles não me cumprimentam mais...".

Depois de muitos anos morando no exterior, Alzirinha estranhou muito o cenário artístico quando retornou, nos anos 50. Tudo estava bem diferente do que ela havia deixado, nos anos 30:

"Minha volta ao Brasil, em dezembro de 1953, depois de treze anos de ausência, foi um desastre. Sofri um impacto muito grande, um choque muito violento. Um ambiente totalmente falso. Só dava fã-clube em cima de fã-clube, fabricando ídolos e talentos duvidosos. Eu, que sempre gostei de ser aplaudida por cinco ou seis pessoas que verdadeiramente reconheceriam a minha arte não podia entender aquela farta distribuição de faixas e coroas e toda aquela rasgarão de roupas no meio da rua. Senti-me totalmente deslocada. Positivamente, o ambiente era bem diferente daquele que eu havia deixado na década de trinta.".

O papo com Alzirinha foi no seu bem decorado apartamento, durante uma longa madrugada, com muito café – sua bebida preferida quando trabalha. Ela não perdeu o charme e ainda sabe cruzar as pernas. Seus olhos continuam terrivelmente verdes quando ela fala de quarenta anos atrás:

"É, 1936, foi o grande ano artístico de minha vida. Sai do Brás e fui para o Rio em novembro de 1935 e já no ano seguinte era sucesso na Rádio Tupi, que funcionava num barracão no bairro de Santo Cristo."

"Não tenho medo de enfrentar nenhum desses ídolos de agora. Quer que seja no palco ou diante das câmaras de Tv. É só ter oportunidade, pois cada valor tem seu estilo, sua maneira de se apresentar. Todos os artistas, mesmo aqueles que estão no Asilo do Retiro de Jacarepaguá, se fossem procurados para fazer alguma coisa, fariam como Carlitos fez em Luzes da Ribalta, pois os artistas são tocados pelo gênio de Deus. Não tem medo."

Sobre sua primeira excursão à Buenos Aires, em 1936:

"O Russo do Pandeiro também foi. Ele era sensacional. Foi o Canhoto, Francisco Alves que cantava o 'Quem quebrou o meu violão de estimação', 'Foi ela'... O Chico era meio amarradão, quase não se comunicava com o grupo. Mais vou te contar uma coisa: depois dele não apareceu ninguém mais.ídolo como ele, muito difícil. É verdade que agora temos um Roberto Carlos, sou fã de Roberto à beça. Roberto que me perdoe. Acho que dessa geração ele é o melhor e vai ser muito difícil desbanca-lo. Não vejo ninguém na frente de Roberto Carlos."

"De mulher do meu tempo Carmen é claro. Agora, tem uma menina, a Elis Regina, que eu considero cantora. Tem ritmo e faz o que quer com a música. Gosto muito de ouvi-la."


O Malho, 1936
http://memoria.bn.br


Sobre seus sucessos Meu Buenos Aires amigo e Ritmo do Coração, compostos para ela por Benedito Lacerda (o segundo em parceria com Herivelto Martins): 

"Gostaria muito de ter estes discos e outros que gravei. Parece incrível, mais não tenho nenhum deles." 

Sobre o filme O Grito da Mocidade, com Raul Roulien e sua mulher Conchita Montenegro, em 1937: 

"No filme eu fazia papel de enfermeira que muito amou o galã e que foi enganada e abandonada por ele. Chorei muito quando assisti o filme."


Ela torna a ir pegar mais um bule de café e na volta lembra-se de suas grandes amigas época:


"Tinha a Araci de Almeida, as Irmãs Pagãs, as Batista, a Elisinha Coelho, que cantava o Rancho Fundo; e Silvinha Melo, muito boa, noiva de Custodio Mesquita; a Roxane, que cantava em inglês e francês, a Dolly Ennor, cantora clássica. Gente bacana. Infelizmente, no Brasil, não dão oportunidade aos artistas de mais idade. Há um preconceito contra eles. Nos Estados Unidos eu vi Sofie Tucker, uma mulher de 75 anos, lotar um teatro e vi Mae West, de 80, arrancar aplausos de uma platéia de jovens."


De 49 a 51 Alzira percorreu a Espanha e foi para Portugal, estreando no Cassino Estoril. Regressando ao Brasil em 53, foi contratada pela Rádio Nacional para fazer um programa “Gente que Brilha” do saudoso Paulo Roberto:


" Pois é. Fiz o que pude e o que não pude para divulgar a nossa música no exterior e nunca fui recompensada por isso. Não compreendo este preconceito que existe contra mim."

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O Malho, 1939
http://memoria.bn.br


A entrevista com Alzirinha Camargo continua na próxima postagem.


Nas gravações seguintes há uma pequena curiosidade. Mesmo estando no mesmo disco, o lado B foi gravado em 18 de novembro de 1936, enquanto o lado A só seria gravado no dia 30 desse mesmo mês e ano.

Papai e Mamãe
Marcha de Benedito Lacerda e Herivelto Martins
Gravada por Alzirinha Camargo
Acompanhamento da Orquestra Odeon sob a direção de Simon Bountman
Disco Odeon 11.435-A, matriz 5469
Gravado em 30 de novembro de 1936 e lançado em janeiro de 1937


Porque Você não Vai!...
Samba de Benedito Lacerda e Herivelto Martins
Gravada por Alzirinha Camargo
Acompanhamento de Benedito Lacerda e Seu Regional
Disco Odeon 11.435-B, matriz 5453
Gravado em 18 de novembro de 1936 e lançado em janeiro de 1937








Agradecimento à Thais Matarazzo e ao Arquivo Nirez







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