quarta-feira, 8 de janeiro de 2014

ARACY CÔRTES, 29 ANOS DE SAUDADE

A bella cantora exclusiva da "COLUMBIA"
Partitura de Moreno Faceiro, samba de Custódio Mesquita,
gravado por Aracy Côrtes em 1932.



Há 29 anos falecia ARACY CÔRTES, a primeira grande cantora da Era de Ouro da MPB.

Aracy Côrtes nasceu em 31 de março de 1904 no Rio de Janeiro, faleceu nessa mesma cidade em 08 de janeiro de 1985, poucos meses antes de completar 81 anos.


Ela se tornou um nome bastante famoso no teatro musicado dos anos 20, chegando a ser considerada uma das mais queridas rainhas do teatro de revista. Nos palcos, coube à ela lançar compositores como Ary Barroso e Assis Valente. Foi ainda a criadora do famoso samba Jura, de Sinhô (em 1928), tendo também lançado um novo estilo musical, o samba-canção, com Linda Flôr - Yayá (Ai Yôyô), de Henrique Vogeler, Luiz Peixoto e Marques Porto.




Um Sorriso
Samba canção de Benedito Lacerda
Acompanhamento da Orquestra Odeon
Disco Odeon 11.144-B, matriz 4880
Gravado em 17 de julho de 1934 e lançado em agosto 




Em 25 de janeiro de 1936, a revista carioca publicou uma matéria sobre Aracy, considerada a Rainha do Samba. Transcrevi a reportagem na íntegra. Seu nome de batismo era Zilda de Carvalho Espíndola. A revista grafou como Spindola ou Spinola. 




 Zilda SPINDOLA
A RAINHA DO SAMBA...
Como nasceu Aracy - a cantora que foi de circo... - 
Agora só "broadcasting"








Aracy Côrtes em início de carreira.




Carioca entrevistou varias figuras de relevo do nosso "broadcasting". Sylvinha mello, Alzirinha camargo, Olga Praguer, Christina Maristany, as Irmãs Pagãs, Marilia Baptista... e quantas mais! Ainda não haviamos, porém, entrevistado Zilda Spinola, authentica rainha do samba...
- Zilda Spinola? - perguntará, surprehendido, o leitor. - Francamente, não me recordo de ter ouvido esse nome...
Cantora, pianista, declamarora? Quem será Zilda Spinola, - deixemos que se dissipe o mysterio, - não é senão o nome verdadeiro, o nome authentico de Aracy Côrtes, a interprete inconfundivel de nossa musica popular. E, agora, na certa, o leitor declarará:

- Ora! Aracy... Tambem quem é que não a conhece?

Pouca gente sabe que é esse o nome de Aracy, - que, ha pouco, regressou da Argentina, depois de ter conquistado expressivos triumphos no Prata. E isso porque a festejada artista só usou seu verdadeiro nome quando estreou, em 1919, no Democrata Circo. Ali, demorou pouco tempo, ingressando logo numa companhia de revistas que trabalhava no Theatro Recreio, sob a direcção de João de Deus.

Trabalhando na revista "Nós pelas costas", foi, então, chrismada com o pseudonymo de Aracy Côrtes, que transformou num dos maiores nomes do nosso theatro popular e do nosso "broadcasting".

Dessa temporada, Aracy não tem saudades. Seguiu para S. Paulo e, voltando mais tarde ao Rio, foi a Campos como empresaria, para logo depois ser contratada pela Empresa Paschoal Segreto, estrando no Theatro S. José, na revista de Duque e Oscar Lopes: "Sonho de opio".
E accrescenta:

- Ha por ahi quem diga maldosamente que só consegui ser "estrella" na praça Tiradentes. É falso. Pondo a modestia de parte brilhei na praa dos Caboclos e brilhei, na Avenida, no Gloria, no Cassino Beira-Mar, no Phoenix e no antigo Palace Theatro. Fui com Jardel Jercolis á Europa, onde o meu exito, se é que houve, foi constatado pela imprensa. Percorri, nessa occasião, Portugal, Hespanha, França e Itália.

- O publico já está saudoso. Quer vêl-a em scena - dissemos nós.

- E eu também estou saudosa delle, mas, infelizmente, o theatro de revista está em situação precária. É doloroso dizer-se que a capital do brasil, a "Cidade Maravilhosa", não tenha para os turistas, não como novidade, mas como passatempo, um só theatro musicado funccionando...

- E quanto á sua viagem á Argentina?

- Fui contratada pelo empresario Cai(?) Elle ficou satisfeitissimo, porque conseguir agradar na Argentina é um "caso muito sério". Os platinos, comquanto não sendo jacobinos, gostam muito do que é deles, e defendem muito, artistica e monetariamente, a prata da casa. No terreno artistico lá vence quem tem merito real.
Aliás, V. não ignora isso. É dos livros, como se diz lá no morro! Ficaram satisfeitissimos com a interpretação dos nossos sambas, com os "bréques" e contracantos, creação dessa sua creada. Ha quem diga que não, mas eu tenho a certeza, embora não cobre direitos autoraes.

- Quaes os seus autores predilectos?

- Todos aquelles que escrevem boas revistas.

- Das peças que já representou, qual a de que mais gosta?

- Duas:"Cidade Maravilhosa" e "Miss Brasil". E já agora aproveito para dizer que os dois sambas que mais me impressionaram até hoje foram: "Ai yôyô", de Luiz Peixoto e Vogeler, e "Sorris", letra e musica de J. J. Soares.

- E, agora, - dissemos nós, - um pouco de suas preferencias. Qual o seu manjar predilecto?

Aracy deu uma gostosa gargalhada e respondeu:

- Espiga de milho cozido.

- E, se fosse rica, que faria?

- Viajaria muito, muitissimo. Teria criadagem especial para tratar exclusivamente das malas, chapelarias, etc.

Despedimo-nos. Aracy trouxe-nos, gentilmente, até o elevador, onde accrescentou:


- Diga na CARIOCA que eu até nova ordem estou no radio, porque sou positivamente do radio: - cansa pouco e popularisa mais!...



Aracy Côrtes
Revista Carioca, 1936








Aracy Côrtes
Revista Carioca, 1936









Agradecimento ao Arquivo Nirez









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