sábado, 28 de fevereiro de 2015

CHIQUINHA GONZAGA E SENHORITA ODETTE, DUAS PIONEIRAS

Chiquinha Gonzaga em 1932.
http://revistapiaui.estadao.com.br/


Há 80 anos falecia a maestrina e compositora Francisca Gonzaga, mais conhecida por Chiquinha Gonzaga.

Nascida em 17 de outubro de 1847, no Rio de Janeiro, ela faleceria em 28 de fevereiro de 1935, em pleno carnaval.

Chiquinha Gonzaga não figura somente como uma compositora de sucesso, mãe da nossa música popular brasileira, mas, também como uma mulher que lutou por seus direitos e sonhos em uma época em que a sociedade era predominantemente patriarcal e à mulher cabia somente o papel de ficar à sombra de seus maridos. O preço que ela pagou foi muito alto, mas, serviu de exemplo para que outras mulheres, suas contemporâneas ou não, também saíssem da prisão que a sociedade lhes impunha.

Com mais de oitenta anos, Chiquinha Gonzaga continuava a compor e a trabalhar em prol dos direitos dos compositores. Durante toda sua fascinante vida, ela se viu cercada por personagens célebres e muitas mulheres que trabalhavam em teatro cantando e dançando suas músicas ou gravando suas composições em discos.

Foi pensando nisso que eu trouxe uma cantora contemporânea da maestrina chamada Odette. Conhecida em discos como Senhorita Odette, ela seria a primeira mulher a gravar no Brasil e na América Latina. Até agora, nenhum pesquisador encontrou nada a respeito de quem seria essa intérprete ou mesmo alguma fotografia sua. Encontrei o nome Odette em peças do período de 1901 a 1904, algumas em francês, mas, não tem como associar as duas pessoas, pois, não havia qualquer menção de discos.

De 1903 a 1904, foram lançados vários discos de Senhorita Odette, entre eles algumas composições de Chiquinha Gonzaga, que musicara versos de poetas e dramaturgos, como Casimiro de Abreu, Palhares Ribeiro e Francisco Sodré. São quatro composições inspiradas e belas, que retratam o romantismo da segunda metade do século XIX. Com o surgimento da indústria fonográfica em 1902, foi possível registrar em cera muitas músicas que fizeram sucesso no século anterior. 

Nesse link http://zip.net/bjmCZT, você confere os jornais de 01 de março de 1935 que falaram sobre Chiquinha Gonzaga.



Eis as músicas e suas gravações, com letras.
Todas foram gravadas por Senhorita Odette.



Manhã de Amor, foi publicada em 1881 para canto e piano por Arthur Napoleão e Cia., na série Canto Português - Coleção de Romances, Modinhas, Lundus, etc. Trata-se de uma bonita valsa com versos de C. C. 

Selo do disco Manhã de Amor.
Não aparece o nome de Chiquinha Gonzaga como autora.
Arquivo Nirez



Côrte na Roça, foi composta em 1884 e fez parte da burleta A Côrte na Roça, de Palhares Ribeiro, que estreou em 1885 no Theatro Príncipe Imperial, no Rio de Janeiro. Foi a primeira vez que uma mulher, Chiquinha Gonzaga, musicava uma peça teatral. A gravação que trazemos é da balada, ou valsa, para canto e piano que encantou público e crítica naquele longínquo 1885, mas, que ainda deslumbra. O autor dos versos é Francisco Sodré. Essa valsa fazia parte do repertório da atriz-cantora Plácida dos Santos.

Poesia e Amor, um lindo e melancólico poema de Casimiro de Abreu escrito na fazenda de seu pai, chamada de  Indaiassú (depois passou a ser a cidade de Indaiaçú, atual Casimiro de Abreu, no Rio de Janeiro) em 1857 e lançado no livro Primaveras, em 1859.
Chiquinha Gonzaga colocaria músicas nesses versos em 1888, conservando o mesmo título de Poesia e Amor.

Beijos, valsa publicada em 1899, como romance, por Manual Antônio Guimarães. fazia parte do repertório de Plácida dos Santos. Os versos são de Luiz Murat e Alfredo de Souza.



MANHÃ DE AMOR

Disco Zon-O-Phone X-699
Matriz X-699 II


 Lá vem a nuvem dourada
Erguendo-se no horizonte
Não tarda que a madrugada
Após a nuvem desponte

Ah! Entre o amor e o desejo
Vem o dia do intervalo
Só posso te dar um beijo
Não ouves cantar o galo

Olha, não vás, um beijo mais
Deixa morena nos teus lábios dar
Oh! bela esquiva deixa que eu viva
O galo canta, deixá-lo cantar!

Da noite rasgou-se o véu
Desfez-se a grata ilusão!
Nenhuma estrela no céu
De amor findou-se a canção

Ah! Adeus, adeus aí vem o sol
Dourando as águas do mar!
São horas! Olha o arrebol…
Lá torna o galo a cantar!

Olha, não vás, um beijo mais…
Deixa morena nos teus lábios dar
Ó bela esquiva deixa que eu viva
O galo canta deixá-lo cantar!

Das aves começa o canto
No jardim acorda a flor
Quebrou-se o mágico encanto
Da nossa manhã de amor

Ah! Toma é o último beijo
Deste amoroso intervalo
Esperemos outro ensejo
Adeus! que lá canta o galo!




CÔRTE NA ROÇA

Disco Zon-O-Phone X-702


1
Esse teu leque formoso
De luz e perfume cheio,
É o beija-flor cauteloso
A esvoaçar em teu seio!

Este calor que tu sentes,
Que te escalda o coração,
São os sintomas ardentes 
De uma impetuosa paixão!

Ah! Ah! São os sintomas ardentes,
Ah! Ah! De uma impetuosa paixão

 2
Este sorriso que implora
Que apurpura os lábios teus,
É uma restea da aurora
De outro azul e de outros céus.

Há no teu colo tremente
O mesmo encanto da flor.
Guarda esse leque explendente,
Meu primeiro e santo amor!
  
3
Meu coração não se acalma,
Não cessa de te adorar.
Deixa abrasar a minh’alma
Nas chamas do teu olhar.

Não temas não há perigo,
Por que te assustas, meu anjo?
Leva minh’alma contigo,
Solta as tuas asas arcanjo.



POESIA E AMOR 

Disco Zon-O-Phone X-705
Senhorita Odette gravou somente as estrofes 1,4, e 5.

 1.
A tarde que expira,
A flor que suspira,
O canto da lira,
Da lua o clarão;
Dos mares na raia
A luz que desmaia,
E as ondas na praia
Lambendo-lhe o chão;
Da noite a harmonia
Melhor que a do dia,
E a viva ardentia
Das águas do mar;
A virgem incauta,
As vozes da flauta,
E o canto do nauta
Chorando o seu lar;

2.
Os tremulos lumes,
Da fonte os queixumes,
E os meigos perfumes
Que solta o vergel;
As noites brilhantes,
E os doces instantes
Dos noivos amantes
Na lua de mel;
Do tempo nas naves
As notas suaves,
E o trino das aves
Saudando o arrebol;
As tardes estivas,
E as rosas lascivas
Erguendo-se altivas
Aos raios do sol;

3.
A gota de orvalho
Tremendo no galho
Do velho carvalho
Nas folhas do ingá;
O bater do seio,
Dos bosques no meio
O doce gorgeio
D’algum sabiá;
A orfã que chora,
A flor que se cora
Aos raios da aurora,
No albor da manhã;
Os sonhos eternos,
Os gozos mais ternos,
Os beijos maternos
E as vozes de irmã;

4.
O sino da torre
Carpindo quem morre;
E o rio que corre
Banhando o chorão;
O triste que vela
Cantando a donzela
A trova singela
Do seu coração;
A luz da alvorada
E a nuvem dourada
Qual berço de fada
Num céu todo azul;
No lago e nos brejos
Os férvidos beijos
E os loucos bafejos
Das brisas do sul;

5.
Toda essa ternura
Que a rica natura
Soletra e murmura
Nos hálitos seus,
Da terra os encantos,
Das noites os prantos,
São hinos, são cantos
Que sobem a Deus!
Os trêmulos lumes
Da veiga os perfumes,
Da fonte os queixumes,
Dos prados a flor,
Do mar a ardentia
Da noite a harmonia,
Tudo isso é – poesia!
Tudo isso é – amor!



BEIJOS

Disco Zon-O-Phone X-696

Nossos desejos são brasas
Ai! Pomba, não sejas louca
Se os beijos tivessem asas
Andavam de boca em boca

Que lindo enxame dourado
Quanto lábio nacarado
Não tremeria ao adejo
De um beijo

Não temas! Geme o piano
Ai! Flor, e ele geme tanto:
Em cada nota um arcano
E uma prece em cada pranto

E esse pranto e tão doce
É leve, como se fosse
O brando e trepido adejo
De um beijo

Não temas, flor, os desejos
Que minha alma ardente esflora
Dá-me os teus beijos, teus beijos
Tem os fulgores d’aurora

Vês meu peito em pranto imerso
Vôa ao céu, astro, ao teu berço!
Remonta em trêmulo adejo
Como um beijo












Fontes:
Arquivo Nirez
Arquivo Marcelo Bonavides

Site Chiquinha Gonzaga: http://www.chiquinhagonzaga.com/





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