segunda-feira, 8 de janeiro de 2018

ARACY CÔRTES - 33 ANOS DE SAUDADE

ARACY CÔRTES em 1929.
Revista Frou Frou.
http://memoria.bn.br


Há 33 anos, em 08 de janeiro de 1985, falecia a cantora e atriz ARACY CÔRTES.

Aracy Côrtes é uma das artistas que mais admiramos, não sem razão. Ela foi um dos principais nomes de nossa música brasileira, tendo uma importância fundamental no lançamento de compositores e músicas que se tornariam consagrados graças à ela durante as décadas de 1920, 1930 e até meados da de 1940.

Nascia Zilda de Carvalho Espíndola, no Rio de Janeiro, em 31 de março de 1904, era vizinha do futuro compositor Pixinguinha e sua família. Ainda pequena, quando seu pai (o chorão Carlos Espíndola) se unia com a família Viana para realizar rodas de choro, ela e sua irmã Dalva (que também seria atriz) ficavam no centro dançando. Seu gosto pela música e teatro a levou a iniciar a carreira ainda adolescente, participando do grupo amador Filhos de Talma. Depois, foi atuar no Circo Spinelli, com o célebre Benjamin de Oliveira. No teatro de revista, faria sua estreia profissional em 31 de dezembro de 1921, com a revista Nós, pelas costas, onde interpretada o personagem Vinho do Porto.


Aracy Côrtes em 1929.
Revista Frou Frou.
http://memoria.bn.br


No começo dos anos 20 apresentava-se com o amigo Pixinguinha e seu conjunto Oito Batutas. Otávio Viana (irmão de Pixinguinha) e o crítico Paulo Magalhães foram os responsáveis por escolher o nome artístico Aracy Côrtes. A princípio, ela relutou, pois havia uma professora conhecida com esse mesmo nome. Chegou a se apresentar algumas vezes como Zilda Côrtes, mas terminou por adotar o pseudônimo completo.

Aracy Côrtes foi uma jovem artista que fez história e viveu a história, chegando aos anos 30 com uma grande bagagem profissional e artística, que a fazia uma veterana ainda com trinta e poucos anos. Ela gravou seus primeiros discos ainda no processo mecânico, na lendária Casa Edison, em 1925, sendo acompanhada pelo Jazz Band Sul Americano Romeu Silva. O locutor que anuncia suas músicas é, muito provavelmente, o cantor Fernando, crooner do Jazz Band. Ela tinha 21 anos e lançava na cera a canção A Casinha, de Luís Peixoto e Pedro de Sá Pereira, que logo se tornou um clássico; também gravou Serenata, de E. Toselli e uma famosa canção do repertório da atriz Pepa Delgado, Petropolitana, de Adalberto de Carvalho, que Pepa havia lançado em 1915, no Theatro São José. Aos 24 anos, em 1928, já lançava mais clássicos de nossa música, tanto no teatro como em discos, como o samba Jura...! de José Barbosa da Silva, o Sinhô. Por ocasião da estreia dessa música no teatro, Aracy precisou repeti-la sete vezes a pedido do público, enquanto Sinhô subia ao palco, chorando, para agradecer. Nesse mesmo ano lança a versão definitiva e clássica de Linda Flor, que ficou rebatizada de Ai Yoyô. Ela lançaria em disco, em 1929, com o título de Yayá. Essa era a terceira versão para a melodia de Henrique Vogeler, feita por Luís Peixoto e Marques Porto. E Ai Yoyô marcaria o resto da vida de Aracy Côrtes.

Falar de sua carreira e vida levaria muitas postagens imensas, pois ela teve uma história muito rica. Lançou várias peças de sucesso, firmando seu nome no cenário teatral e sendo considerada uma de nossas Rainhas do Teatro de Revista, além de ser aclamada em várias publicações como Rainha do Samba. Já retirada dos palcos, com a idade madura, retornou em 1965 no famoso show Rosa de Ouro, ao lado de Clementina de Jesus, Paulinho da Viola, Nelson Sargento, entre outros.


Aracy Côrtes em 1929.
Revista Frou Frou.
http://memoria.bn.br


Apesar de todo seu sucesso e prestígio ao longo de sua carreira, quando idosa era esquecida pela grande mídia, como tantas outras colegas. Teve no cenógrafo J. Maia a figura de um filho que a acolheu e cuidou dela até o fim, e a presença de amigos fiéis como a cantora Marília Barbosa, com quem Aracy dividiu o palco em 1984, em seu último show, por ocasião de seus 80 anos. Marília interpretaria Aracy, em 1989, na novela Kananga do Japão exibida pela Rede Manchete.

Em 08 de janeiro de 1985, aos 80 anos, Aracy Côrtes falecia no Rio de Janeiro, encerrando uma fase de ouro do teatro e de nossa música brasileira.


Aracy Côrtes.
Revista Phono-Arte, 1930.
Arquivo Nirez.


Para homenageá-la trago quatorze gravações originais datadas de 1925 a 1929, inclusive duas de seus primeiros registros, além da letra de cada música. Agradeço ao amigo Gilberto Inácio Gonçalves pelos selos de A Casinha e Petropolitana e ao Arquivo Nirez.




MÚSICAS



A CASINHA


Canção de Luís Peixoto e Pedro de Sá Pereira
Acompanhamento do Jazz Band Sul Americano Romeu Silva
Disco Odeon Record 122.884
Lançado em 1925



PETROPOLITANA


Canção de Adalberto de Carvalho
Acompanhamento do Jazz Band Sul Americano Romeu Silva
Disco Odeon Record 122.885
Lançado em 1925



JURA...!



Samba de Sinhô (José Barbosa da Silva)
Acompanhamento de Simão Nacional Orquestra
Disco Parlophon 12.868-A, matriz 2071
Lançado em novembro de 1928



CHORA VIOLÃO



Canção Sertaneja de Josué de Barros
Acompanhamento de piano e violão
Disco Parlophon 12.868-B, matriz 2083
Lançado em 1928



YAYÁ



Canção Brasileira de Henrique Vogeler, Marques Porto e Luís Peixoto
Acompanhamento da Orquestra Parlophon
Disco Parlophon 12.926-A, matriz 2366
Lançado em março de 1929



BAIANINHA




Samba de De Chocolat e Oscar Mota

Acompanhamento da Orquestra Parlophon
Disco Parlophon 12.926-B, matriz 2365
Lançado em março de 1929



A POLÍCIA JÁ FOI LÁ EM CASA



Samba Canção de Olegário Mariano e Júlio Cristóbal
Acompanhamento da Orquestra Pan American
Disco Odeon 10.426-A, matriz 2656
Lançado em julho de 1929



QUEM QUISER VER



Samba de Eduardo Souto
Acompanhamento da Orquestra Pan American
Disco Odeon 10.426-B, matriz 2657
Lançado em julho de 1929



TU QUÉ TOMÁ MEU HOME



Samba de Ary Barroso e Olegário Mariano
Acompanhamento da Orquestra Pan Amercian
Disco Odeon 10.446-A, matriz 2764
Lançado em agosto de 1929



ZOMBA



Samba de Francisco Alves
Acompanhamento da Orquestra Pan Amercian
Disco Odeon 10.446-B, matriz 2765
Lançado em agosto de 1929



QUINDIS DE YAYÁ



Samba de Pedro de Sá Pereira e Cardoso Menezes Bittencourt
Acompanhamento da Orquestra Pan American
Disco Odeon 10.457-A, matriz 2815
Lançado em agosto de 1929



VAMOS JUNTAR OS TRAPINHOS



Canção Dolente de Pedro de Sá Pereira
Acompanhamento da Orquestra Pan American
Disco Odeon 10.457-B, matriz 2816
Lançado em agosto de 1929



O AMOR VEM QUANDO A GENTE NÃO ESPERA (SAMBA DA PENHA)



Samba de Ary Barroso, Cardoso de Menezes e Bittencourt
Acompanhamento de Orquestra
Disco Odeon 10.469-A, matriz 2.866
Lançado em outubro de 1929



POETA DO SERTÃO



Cateretê de Eduardo Souto e Arlindo Leal
Acompanhamento de Orquestra
Disco Odeon 10.469-B, matriz 2.865
Lançado em outubro de 1929





 LETRAS


A CASINHA

Você sabe de onde eu venho?
De uma casinha que eu tenho
Fica dentro de um pomar
É uma casa pequenina
Lá do alto da colina
De onde se ouve, longe, o mar
Entre as palmeiras bizarras
Cantam todas as cigarras
Sob o pó de ouro do sol
Do beiral desse horizonte
No jardim canta uma fonte
E, na fonte, há um caracol

Quando vejo, lá da estrada,
A casinha abandonada
Sinto n´alma um não sei quê
Como é triste a natureza
Anda em tudo uma tristeza
Com saudades de você
Você, que é minha amiguinha,
Venha ver minha casinha
Minha Santa, meu pomar
Que o meu cavalo é ligeiro
Dá uma légua só do outeiro
Chega a tempo de voltar

Mas, se acaso anoitecer
Tudo pode acontecer
Que será de mim, depois?
A casinha pequenina
Lá no alto da colina
Chega bem para nós dois.



PETROPOLITANA

Petrópolis linda é brasileira
Oh! Minha terra
Tu és tão bela e tão faceira
E aí na serra
Moram Cupido e a Deusa Flora
Que rindo chora
Com os perfumes e mil odores
Que se exalam dentre as flores

Petropolitana
És a flor mais gentil
Tão linda serrana
Ai, só tem no Brasil

Petrópolis santa és peregrina
Tu és rainha
Tens alma pura e cristalina
Qual cascatinha
Em que desliza amor fecundo
Pedro Segundo
Deu-te vida e realeza
Poetizou com a natureza.



JURA...!

Jura, jura, jura
Pelo Senhor
Jura pela imagem
Da Santa Cruz do Redentor
Pra ter valor a tua jura
Jura, jura de coração
Para que um dia
Eu possa dar-te o meu amor
Sem mais pensar na ilusão

Daí, então,
Dar-te eu irei
O beijo puro na Catedral do Amor
Dos sonhos meus
Bem junto aos teus
Para fugirmos das aflições da dor.



CHORA VIOLÃO

Eu me chamo Frô das Mata
Maria da Conceição
Não sei quantos anos tenho
Nunca me disseram não
Não cheguei a ver meu pai
Minha mãe não conheci
Foi nas margens do Tietê
Que disseram que eu nasci

Chora violão com sodade do sertão
Chora violão com sodade do sertão

Arrecebi um biête
Que foi numa cor de terra
Me chamando pra cantá
As toada lá da serra
Eu cantei, sim, meu senhor
Mas senti, não nego não,
A tristeza mais a dô
Me doer no coração

Essas coisinha que eu sinto
Lá em riba eu não sentia
Essa dô dentro dos peito
Também lá não me doía
Eu não sei se foi pro modo
De um frô avremeiada
Que me deram quando a cá
Vem me cantá minhas toada

Eu só queria sabê
Esses negócio de amô
A mode vê se é por isso
Que meus peito sente dor
Nem eu não queria vir
Tu mesmo me aconseiô
Agora, choremo anssim
Como inda ninguém chorou, oi.



YAYÁ

Ai Yoyô, eu nasci pra sofrê
Fui olhá pra você, meus olhinho fechô
E quando os olho eu abri
Quis gritá, quis fugí
Mas você, eu não sei porque
Você me chamô
Ai Yoyô, tenha pena de mim
Meu Sinhô do Bonfim
Pode inté se zangá
Se ele um dia soubé
Que você é que é
O Yoyô de Yayá.

Chorei toda a noite e pensei
Nos beijo de amô que eu te dei
Yoyô, meu benzinho
Do meu coração
Me leva pra casa
Me deixa mais não.

  

BAIANINHA

É baianinha faceira
Toda dengosa e gentil
Das melhores, a primeira
Nestas terras do Brasil
Tem um certo requebrado
E um quadril ondulante
Faz ficar apaixonado
Qualquer tipo elegante.

E que candonga no calcanhar
As mussorongas a saltitar
Ela é bonitinha como ninguém é
Com a chinelinha na ponta do pé.

Um belo Pano da Costa
E a trunfa enroscada
Qual o moço que não gosta
De uma camisa bordada
A baiana tem certeza
Certeza que é estimada
Ela vale quanto pesa
Sem precisar ser pesada.



A POLÍCIA JÁ FOI LÁ EM CASA

Polícia já foi lá em casa sabê
Se eu dou meu dinheiro todo a você

Quando tu veio
Só trazia o sobretudo
Te dei camisa, te dei terno
Te dei tudo
Eu já não sei que fazer mais
Para te pagar
Tanta pancada que você me dá
Meu bem, o castigo que Deus me deu
É teu
Não sei como podes zombar assim
De mim
Não vês que morro de amor por ti
Por ti
Por ti, o que era meu eu perdi
Ai, meu Deus foi assim que eu cai
Cruel, teu sorriso me faz sofrer
Morrer
O meu só te faz é te aborrecer, esquecer
Meus beijos, você já quis
Não quer
Os teus, quê que havemos de fazer?
Eu sei que você, marvado,
Dá eles pra outra mulher.



QUEM QUISER VER

Quem quiser ver
Quem quiser ver
Tem que pagar
Sem se mexer
Sem se mexer
Não pode entrar.

Eu sou mulata sabida
Sei mexer, sei dançar
Na perfeição
O meu prazer nesta vida
É machucar um maganão.

Quem quiser ter
Quem quiser ter
Este peixão
Tem que fazer
Tem que fazer
Combinação.



TU QUÉ TOMÁ MEU HOME

Por Deus, me deixa sossegada
Tu qué toma meu home
Mas meu home eu não te dou
Eu gosto é de levar pancada
E até de passar fome
Por amor do meu amor
Pra esse homem eu esquecer
Estou dando pra beber
Estou dando pra roubar
E se a polícia me prender
Já sei que foi você
Que foi me denunciar

Não faz isso assim, não
Tenha compaixão, sim
Não queira me encrencar
Mulher malvada e má
Gozar, me deixa a vida desgraçada
Não faz isso assim, não
Tenha compaixão, sim
Não queira me encrencar
Nem me perder por que
Assim, meu destino é só sofrer.



ZOMBA

Zomba, zomba
Quando ver chorar alguém
Mas um dia, Deus castiga
Faz a gente amar também
O amor custa, mas vem

Fui à Bahia ver o Senhor do Bonfim
O feitiço das baianas
Mal cheguei, pegou em mim
Gente danada pra fazer sofrer de amor
Com certeza foi castigo
Que me deu Nosso Senhor.

Lá na Bahia fiz tudo
O que quis, enfim
As baianas com suas saias
Jogaram feitiço em mim
Gente danada
Pra fazer sofrer de dor
Mas isto não é castigo
Que abale o meu amor.



QUINDIS DE YAYÁ

Yoyô, Yoyô, Yoyô
Repare só como treme toda essa gelatina
Yoyô, Yoyô, Yoyô
É bom que dói
Isto não faz mal
É comida fina
Cheirou, provou, gostou
Mexendo, assim,
Ai, meu Deus, então
Você pede bis
Yoyô, eu sou manjar
Se quer provar
Garanto, eu juro
Que você vai ser feliz
Esses quindins que eu tenho
São para o meu bem
Esses quindins que eu tenho
Que eu tenho
São dele e de mais ninguém.



VAMOS JUNTAR OS TRAPINHOS

Fecho o meu baú de foia
Guardo de novo os trapinho
Com todo o meu carinho
Vamos, bem juntos, pela vida
Continuar nosso caminho
Continuar nosso caminho
Viverei junto, bem juntinho
Com loucura verdadeira
Como bela parasita
Que se agarra a um tronco forte
Para se livrar da morte
E, assim, passa a vida inteira.

Meu amor, bem que mereço
O teu perdão, meu bem
Foi sempre teu meu coração, também
Eu juro à Virgem cara a cara
Nunca mais nós se separa
Amor, a nossa vida é uma só,
Meu bem
Pois eu serei tua mulher
Enquanto houver,
Aqui, nosso querido violão.



O AMOR VEM QUANDO A GENTE NÃO ESPERA (SAMBA DA PENHA)

Eu sei, eu sei
O amor vem quando a gente não espera
Disfarçadamente
Morde como fera
E faz a gente padecer
Sem querer
Depois, os dois
Pensando que a ventura não tem fim
Sofrem tal desilusão
E tudo acaba, então
Em dor
E é sempre assim

Numa barraca lá da Penha
Num domingo dos barraqueiros
Eu te encontrei
Quando puseste em meus olhos
Os teus olhos mexeriqueiros
Quase desmaiei
Sem poder me defender
Fiquei logo cativa
E o motivo desta afeição
É uma interrogação
Uns dizem que sou
Até bem feliz
Que a Santa me ajudou.



POETA DO SERTÃO

O caboclo do sertão
Quando a noite é de luar
Com prazer, satisfação
Sabe a viola temperar
Com ternura, apaixonado
A cantiga sempre entoa
E, pra lá dos descampados,
Os ais ele ressoa, ah.

O poeta do sertão ama o luar
Com a arma e coração
Sempre a cantar.
O poeta do sertão
Sempre a cantar
Com a arma e coração
Bem sabe amar.
O poeta do sertão
Sempre a sonhar
Com a arma e coração
Bem sabe amar.

Com a viola temperada
No descanso além de cá
E seguindo com a toada
Com fervor cantando-a
Fim de amor, crué, padece
Foge logo pra um retiro
E se o canto lhe entristece
Morre sempre num suspiro, ah.

O poeta do sertão ama o luar
Com a arma e coração
Sabe cantar
O poeta do sertão
Bem sabe amar
Com a arma e coração
Sofre penar
O poeta do sertão
Bem sabe amar
Com a arma e coração
Sofre penar.










 Agradecimento a Gilberto Inácio Gonçalves e ao Arquivo Nirez



















Um comentário:

  1. Maravilha as fotos e o texto. Aracy era grande. Uma pena que as novas gerações não a conheçam...mas ainda bem que nós a conhecemos. e gostamos muito. Obrigado Marcelo por nos brindar com tudo.

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