segunda-feira, 29 de janeiro de 2018

STEFANA DE MACEDO - 115 ANOS

STEFANA DE MACEDO, 1930.
"À Phono - Arte uma lembrança de Stefana de Macedo. Rio, 6/6/930".
Arquivo Nirez.



Há 115 anos nascia a cantora, compositora, violonista e pesquisadora de nosso folclore STEFANA DE MACEDO.

Stefana de Moura Macedo nasceu em Recife (PE) em 29 de janeiro de 1903. Era filha do Dr. Erasmo V. de Macedo e D. Euxelia de Moura Macedo, figuras de destaque da sociedade de Pernambuco.

Quando criança, sua avó cantava modinhas e temas populares para que ela adormecesse, nas noites de lua cheia, como nos conta a revista Phono – Arte, que afirmava que essas melodias contribuiriam para aprimorar sua alma “nortista, sentimental e vibrante”, melancólica e poética.

Em 1912, Stefana de Macedo passou a morar no Rio de Janeiro, estudando no Colégio Rampi William.

Começou a estudar violão em 1926 e, em pouco tempo, se tornaria a primeira cantora – pesquisadora de nosso folclore. Após aprender violão com dois professores, passou a estudar sozinha.

Estreou em 06 de novembro de 1926 no Theatro do Copacabana Palace, onde o número de pessoas foi muito além do necessário para lotar o lugar.

Em maio de 1927, mais um sucesso. Ela se apresentou em recital no salão nobre do Instituto Nacional de Música. Em dezembro desse ano, se apresentou no Theatro Municipal de São Paulo para uma seleta e numerosa plateia, com muito êxito. Seu sucesso e prestigio aumentaria mais ainda em 1928, ao se apresentar em outubro no Theatro Municipal do Rio de Janeiro. Em 1929 retornou ao Municipal de São Paulo e, mais uma vez ao Rio de Janeiro, com apresentação no Theatro Municipal dessa cidade.

Em março de 1928 já dava aulas de canto e violão, com várias alunas inscritas.
É interessante vermos como o violão ia saindo da marginalidade em que vivia até o comecinho do século XX e, na década de 1920, seria adotado por moças de família, representantes da "boa sociedade".



Stefana de Macedo, 1928.


Considerava a música nortista (ou nordestina, na época em que o Nordeste era apenas "o Norte") a verdadeira música popular brasileira. Considerava a música do Sul (possivelmente aqui está incluso o Sudeste) influenciada pela música da Argentina, Paraguai e Uruguai. Isso não impediu que ela gravasse zambas.

Antes de gravar discos, apresentava-se na Rádio Sociedade Mayrink Veiga.

Boa parte de seu repertório ela conheceu ainda menina. Dessas recordações da infância contava que A Mulher e o Trem ela ouvira aos nove anos de idade, no carnaval carioca. Como se Dobra o Sino também foi uma das canções que ela aprendeu ainda criança.

Stefana começou a gravar em 1928. Seu primeiro disco trazia as composições de Hekel Tavares e Luís Peixoto: Lua Cheia (que Hekel Tavares dedicou à ela) e Era Aquilo Só... Hekel acompanhava Stefana ao piano, em disco Odeon.

Foi a primeira cantora a romper com o estilo erudito de cantar, com sua voz suave e afinada, carregada do gostoso sotaque pernambucano.

Sua música mais conhecida é História Triste de Uma Praieira, gravada na Columbia em 1929, uma melodia de domínio público com versos de Adelmar Tavares, que teve arranjo da própria Stefana.

Seu repertório era de músicas folclóricas ou semi-folclóricas. Encontramos maravilhas como Preta SinháDespedidaCavalo MarinhoRede do Ceará...

Ela se dizia muito à vontade diante do microfone; e isso era muito importante no final dos anos 20, uma vez que as gravações elétricas chegaram ao Brasil em 1927. Era preciso ter desenvoltura diante da nova tecnologia. Quando esteve em São Paulo, gravando nos estúdios Columbia, ela deixou registrada na cera 20 músicas em apenas cinco dias.

Afirmava ainda que entre os seus sucessos se destacavam Batuque, História Triste de uma Praieira, Bambalelê, Tiá de Junqueira, Olelê Tamandaré, Bicho Caxinguelê.

Em 1931, Stefana apareceu no primeiro filme musical brasileiro, Coisas Nossas, onde cantava Batuque e Bambalelê.

Gravou várias músicas de Hekel Tavares e Amélia Brandão Nery.

Stefana de Macedo faleceu no Rio de Janeiro (RJ) em 01 de setembro de 1975.


Stefana de Macedo, 1927.


Trago algumas de suas gravações, as letras e a crítica que a revista Phono – Arte fez para Lua Cheia e Era Aquilo Só... Todas as gravações são excelentes, mas destaco a interpretação de Stefana de Macedo em Sussuarana, um primor!



Revista Phono - Arte, 15 de agosto de 1928

P. 10.



P.21





TENHO UMA RAIVA DE VANCÊ
Canção de Hekel Tavares e Luís Peixoto
Acompanhamento de Hekel Tavares ao piano
Disco Odeon 10.204-A, matriz 1703
Lançado em 1928



SUSSUARANA
Canção de Hekel Tavares e Luís Peixoto
Acompanhamento de Hekel Tavares ao piano
Disco Odeon 10.204-B, matriz 1704
Lançado em 1928



LEONOR
Samba de Catullo da Paixão Cearense
Acompanhamento de Lúcio Chameck ao piano e Josué de Barros ao violão
Disco Odeon 10.209-B, matriz 1732
Lançado em 1928



LUA CHEIA
Canção de Hekel Tavares e Luís Peixoto
Acompanhamento de Hekel Tavares ao piano
Disco Odeon 10.228-A, matriz 1718
Lançado em agosto de 1928



ERA AQUILO SÓ...
Canção de Hekel Tavares e Luís Peixoto
Acompanhamento de Hekel Tavares ao piano
Disco Odeon 10.228-B, matriz 1719
Lançado em agosto de 1928



BICHO CAXINGUELÊ
Cateretê de motivo popular com arranjo de Stefana de Macedo
Acompanhamento de violões
Disco Columbia 5.092-B, matriz 380231-2
Lançado em outubro de 1929



SAIA DO SERENO
Toada Pernambucana de motivo popular com arranjo de Stefana de Macedo
Acompanhamento de violões
Disco Columbia 5.092-B, matriz 380232-1
Lançado em outubro de 1929




SIRICÓIA
Toada Amazonense de João Pernambuco
Acompanhamento de João Pernambuco ao violão
Disco Columbia 5.128-B, matriz 380441-1
Gravado em 30 de setembro de 1929 e lançado em dezembro



SODADE CABOCLA
Coco de João Pernambuco e E. Tourinho
Acompanhamento de João Pernambuco ao violão
Disco Columbia 5.147-B, matriz 380445
Lançado em fevereiro de 1930



OLELÊ TAMANDARÉ
Coco de motivo popular com arranjo de Stefana de Macedo
Acompanhamento de violões
Disco Columbia 5.190-B, matriz 380437

Lançado em março de 1930







Letras


TENHO UMA RAIVA DE VANCÊ

Tenho uma raiva de vancê
Eu chego inté a maginá
Que isso entre nós é coisa feita
Nós peguemo a conversa
Não sei pruquê nos não se ajeita

Tenho uma raiva de vancê
Um dia eu compro um canivete
Amolo bem vancê vai ver
Quando vancê tivé drumindo
E corto um taco de cabelo
Que é pra vancê ficá sabendo
Que raiva eu tenho de vancê

Eu tenho andado nesses dias
Que nem um Sacy Pererê
Com os oio aberto sem vê nada
Me dá uma tar marnigumia
Que eu fico as vêz desconfiada
Que eu gosto, e muito, de vancê.



SUSSUARANA

Faz três sumana
Que na festa de Santana
O Zezé Sussuarana me
chamô pra conversá
Desta bocada,
nós saimo pela estrada
Ninguém não dizia nada
e fumo andano devagá
A noite veio
O caminho estava em meio
Me deu aquele arreceio
que arguém nos pudesse ver
Eu quis dizê: Sussuarana, vamo imbora!
Mas, Virge Nossa Sinhora
cade boca pra eu dizê?
Mais adiante
Do mundo já tão distante
Nos dois paremo um instante
Prendemo a suspiração
Envergonhado,
ele partiu pra meu lado
Ai, Virge dos meu pecado
me dê minha absorvição
Foi coisa feita
Foi mandinga
Foi maleita
Que nunca mais se endireita
Que me butarão, é capaz
Sussuarana,
meu coração não me engana
Vai fazê cinco sumana
e tu num volta nunca mais.



LEONOR

Ai tem pena do pobre, Leonor

Do meu coração, Leonor
Que, com tanta pena, Leonor
Num avoa não, Leonor

Dança, dança, cabôca Leonor
Num apara não, Lenor
Se tu tes piedade, Leonor
Pula Virgem Conceição
É São João Quem pede, Leonor
Pula Virgem Conceição
Eu te peço puro amor
Pulo amor de São João

Todo passo avoa, Leonor
Lá no meu sertão, Leonor
Pruquê não avoa, Leonor
Esse passo coração
Pra que tanta pena, Leonor?
Tantas pena em vão, Leonor
Pruquê não avoa, Leonor,
esse passo coração?

Mas, porém, apara, Leonor
Ai, num dança, minha flô
Num machuca minha dô
Deixa o coração em paz
Deixa o coração em paz
Mas, porém, requebra mais.
Mas, porém, requebra mais, Leonor
Leonor



LUA CHEIA

A Lua Cheia quando sai detrás dos montes
Vem muito devagarzinho, bem na pontinha do pé
Desconfiada, quando vê a meninada
Fica toda encabulada, com vontade de vortá
Pru causa disso as menina tão dizendo
Que ela quando entrá na mata
Pra namorado alcançar
Menina Lua, nós vimo tudo
Teu namorado já foi simbora
E a lua, triste, procurando pelo céu
Vai caminhando com vontade de chorá.


ERA AQUILO SÓ...

Com os meus trapinhos
Minhas coisinhas
Meu sabiá
Uma roseira
Um sitiozinho
E mais ninguém
Eu via a vida tão diferente
Tão diferente do que ela é
Tinha saudade de tanta coisa
Nem sei dizer
Mas uma noite
Veio um tufão e carregou
Minhas coisinhas
Minha roseira
Meu sabiá
Carregou tudo
Tudo que eu tinha de mais mió
E eu vi que a vida
Não é mais nada
Era aquilo só...



BICHO CAXINGUELÊ

Ritinha, meu coração,
É danadinho como ele só.
É o bicho Caxinguelê.
Ele sobre pro pau arriba
Ele desce pro pau abaixo
Ele corta cipó c´oas mão
E ele acarca com os pé no chão
Ele acarca com os pé no chão
Minha Ritinha, meu coração
É o bicho Caxinguelê
Ele é mermo que gaturamo
Ele avoa com os pé pra frente
Ele desce com os pé pra trás
Ele come de mão em mão
Ele canta pra toda gente
Meu bicho Caxinguelê
Ele canta pra toda gente
Mas só bate só pra vancê.



SAIA DO SERENO

Saia do sereno, Yayá
Saia do sereno, Yayá
Saia do sereno
Que essa frieza faz má

Chiquinha do Riachão
Totonha do Lagamá
Como Chiquinha não tem
Como Totonha não há
Chiquinha pra querê bem
Totonha pra acarinhá.

Já me contaru
Que uma mulhé
Esteve maluca
Pru mode José
Ela ficava como Yayá
Assim, no sereno,
debaixo do luar.

Yayá, coitada
Tem coração
Por isso é que sofre
de ingratidão
Yayá me escute
Faça o que eu fiz
Pois só quem não ama
é que véve feliz.



SIRICÓIA

Siricóia tá cantando
bem pertinho do ´gapó
Como vai, minha siricóia?
Siricó! Siricó! Siricó!

Vancê, quando tem presunto
Num convida pra jantá
Mas quando tem seu defunto
Me chama pra carrega.

Nunca vi carrapatêra
butá cacho na raiz
Nunca vi moça sortêra
Tê palavra no que diz.

Quando a muié qué negá
que ofendeu o seu amô
Ajunta dedo com dedo
Jura pur Nosso Sinhô.

Quiria sê um burrinho
Desses que anda na tropa
Pra visitá três país
França, Paris e Oropa.

Quem quizé escoiê moça
Não escoia pelo andá
Que a moça quando é veiaca
Pisa no chão devagá.



SODADE CABOCLA

Morena, minha morena
Fique aqui minha pequena
Muito chegadinha a mim
Vou dizer no seu ouvido
Tudo que eu tenho sentido
Depois que lhe conheci.

Meu coração era à toa
Cumo as águas da lagoa
Quando não há viração
Mas vancê chegou me oiando
Me sorrindo e me falando
Me encrespou meu coração.

Levantou o meu ciúme
Com seus dois óio de lume
Vi labareda crescer
E no teus óio sereno
Eu fui bebê o veneno
Que faz a gente morrê.

E nessa dô endoideço
E nesse mal não te esqueço
Eu não posso te esquecer
Vivi sempre doce e carmo
Bem no fundo da minha arma
Que por ti há de morrer.

E nessa mágoa sem termo
O meu coração enfermo
Chama por ti meu amô
Relembra teus óio lindo
Tua boca me sorrindo
Todo teu corpo de flô.



OLELÊ TAMANDARÉ


Olelê Tamandaré
Cacimba nova
As água toda renova

Mariquinha vai simbora.
Cumo eu passo sem vancê?
Quem bota café no fogo?
E quem faz meu dicumê?

As águas toda renova
Só não renova esse amô
Porque morreu de verdade
E foi vancê quem mato.

Quando eu não vejo a morena
Que é reizão do meu vive
Cadê sono pra eu drumi?
Cadê fome pra eu cumê?

Mas inda tenho esperança
De renová este amô
Muita vez nas sepultura
Nasce um pezinho de frô.







Agradecimento ao Arquivo Nirez











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